ECONOMIA

Desemprego cai para 5,2% em setembro, menor nível para o mês

30 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

População ocupada soma 103,6 milhões, novo recorde. Renda fica em R$ 3.790, avanço de 3,6% em relação a igual período do ano passado

Aplicativo da carteira de trabalho digital  – Foto: Marcelo Camargo/ABr

O desemprego voltou a cair e chegou a 5,2% no trimestre encerrado em setembro, o menor nível para o mês na série histórica iniciada em 2012, enquanto a população ocupada bateu recorde. O resultado veio em linha com as expectativas de mercado e, segundo economistas, mostra um emprego ainda aquecido, sustentado em parte pelos estímulos fiscais, mas com sinais de desaceleração diante da perda de força da economia.

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) foram divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE. No trimestre encerrado em agosto, o número estava em 5,3%, enquanto no trimestre móvel anterior, encerrado em junho, a taxa era de 5,4%. Já no mesmo período do ano anterior, o desemprego estava em 5,6%.

Com isso, o contingente da população ocupada chegou a 103,6 milhões, o maior de toda a série, com alta de no trimestre (mais 581 mil pessoas) e aumento no ano (mais 1,2 milhão de pessoas).

Já o número de desempregados ficou em 5,6 milhões, com queda de 4% (menos 234 mil pessoas) em relação ao segundo trimestre do ano. Na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, houve queda de 6,9% (menos 417 mil pessoas).

Entre as atividades com alta na ocupação, o maior destaque foi o crescimento no setor da construção, que subiu 2,8% no trimestre, com mais 210 mil pessoas ocupadas.

Segundo o analista do IBGE, William, o terceiro trimestre costuma registrar aumento da ocupação e queda do desemprego, com a preparação da produção e do comércio para a demanda de fim de ano. Desta vez, porém, o avanço foi mais contido entre as atividades: apenas a construção apresentou crescimento estatisticamente significativo. Uma possível explicação, segundo ele, é que empresas tenham aguardado o resultado das eleições para decidir sobre novas contratações.

— Vamos ver as próximas divulgações para confirmar se era isso ou se simplesmente já estamos num patamar bem elevado de ocupação e agora o ritmo vai ser naturalmente mais lento — afirmou.

A renda, por outro lado, teve leve alta — considerada estabilidade estatística — e chegou a R$ 3.790 na comparação trimestral. Já na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o rendimento cresceu 3,6% (mais R$ 131).

Mercado aquecido, mas com menos fôlego

O mercado de trabalho segue aquecido, mas já reflete a perda de força da economia, avalia o economista Rodolpho Tobler, do FGV Ibre. Para ele, a pequena queda do desemprego após descontados os efeitos sazonais indica um cenário próximo da estabilidade, diferente das reduções mais intensas observadas até 2025.

— Por mais que seja um mercado aquecido e uma taxa de desemprego muito baixa, a gente tem algumas sinalizações de desaceleração, e uma delas é esse andar de lado da taxa de desemprego, que tem muito a ver com a economia. A gente tem uma economia que está dando sinais claros de desaceleração. Especialmente os números de atividade do segundo e do terceiro trimestre tem vindo num ritmo mais abaixo.

No entanto, ele ressalva que a desaceleração continua lenta e gradual, porque ainda há expectativa crescimento econômico no ano, mesmo que em um ritmo menor.

Já Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, aponta fatores que ajudam a sustentar o emprego mesmo com a atividade mais fraca, incluindo mudanças mais estruturais, que independem da atividade econômica, como a demografia, a expansão do trabalho por plataformas, com a chamada ‘gig economy’, e o crescimento das pequenas empresas.

Segundo ele, o avanço do número de empregadores também abre espaço para novas vagas. Ele destaca ainda que os estímulos fiscais favorecem o consumo e ajudam a conter a desaceleração.

— Essa política de valorização do salário mínimo também é outro fator que ajuda a colocar a renda lá pra cima. Um real a mais na mão de uma pessoa mais pobre possivelmente está sendo destinado para o consumo. E, consequentemente, o consumo retroalimenta o emprego — diz Imaizumi.

Estímulos fiscais

O economista da 4intelligence acrescenta que a perspectiva de continuidade dos estímulos fiscais após a reeleição de Lula pode ajudar a manter o mercado de trabalho aquecido em 2027. Segundo ele, medidas como o reajuste do Bolsa Família também ampliam o consumo, sobretudo de produtos básicos, e favorecem a geração de vagas. Esse impulso, porém, também dificulta o combate à inflação de serviços e pode exigir maior cautela do Banco Central nos cortes de juros.

Rodolpho Tobler, do FGV Ibre, também atribui parte da resistência do mercado de trabalho à expansão dos gastos públicos, tanto federais quanto estaduais e municipais. Para ele, um ajuste fiscal mais gradual pode prolongar a sustentação da demanda, mas as definições sobre a equipe econômica e as políticas do próximo mandato serão decisivas para as perspectivas do emprego.

— Essa desaceleração mais gradual, tanto na economia quanto no mercado de trabalho, mesmo com uma taxa de juros muito elevada, tem muito impacto também dos estímulos que foram feitos ao longo do tempo — afirma Tobler.

Sobre o impacto dos dados do desemprego para o Banco Central, Imaizumi avalia que a resistência do emprego pode reforçar a cautela do Copom e favorecer uma pausa nos cortes de juros. Já Tobler considera que os dados vieram dentro do esperado e vê maior influência de outros fatores sobre a decisão:

— O dólar subindo, se ficar por muito tempo alto, talvez incomode mais do que qualquer resultado aqui do mercado de trabalho — diz Tobler.

Novo impulso nos próximos meses

Para o fim do ano, as contratações ligadas à Black Friday, ao Natal e às férias devem dar novo impulso à ocupação. Imaizumi projeta que o desemprego pode bater mais um recorde e chegar a 4,9% no trimestre encerrado em dezembro. Tobler também não descarta uma taxa abaixo de 5%, mas chama atenção para o que acontecerá depois das festas:

— A minha dúvida fica para a virada do ano: qual vai ser o percentual de efetivação, quanto vai ser absorvido e quanto o mercado de trabalho vai acabar devolvendo dessas contratações de final de ano — afirma.

Para 2027, Imaizumi prevê taxa média de desemprego de 5,4%, igual à projetada para 2026, mesmo com possível crescimento menor do PIB. Tobler, por outro lado, espera um início de ano um pouco pior que o de 2026, com os efeitos da desaceleração chegando de forma mais clara ao emprego. A intensidade desse movimento dependerá das decisões sobre a política econômica e da trajetória dos juros.

Incerteza com o fim da 6×1

O fim da escala 6×1 acrescenta uma incerteza às perspectivas para as contratações, segundo Tobler. O economista avalia que os efeitos da mudança para o regime 5×2 devem começar a aparecer na passagem para 2027, quando o mercado de trabalho também tende a sentir mais claramente a desaceleração da economia.

Para as vagas de fim de ano, ele considera cedo para prever o impacto. Será necessário observar o perfil dos temporários: parte trabalha informalmente, enquanto outros já cumprem jornadas menores.

— Se é uma contratação temporária feita informalmente, já não tem um efeito tão grande, porque não segue as leis trabalhistas. Ao mesmo tempo, se é uma contratação temporária, às vezes já era de menos horas — explica.

Recorde de empregadores

O número de empregadores atingiu o recorde de 4,5 milhões, com alta de 4,3% em relação ao trimestre encerrado em junho e de 6,4% na comparação anual.

“Empregadores são multiplicadores de trabalho, visto que o fruto do seu empreendimento gera novas oportunidades. Esses, que por muitas vezes foram trabalhadores por conta-própria, conseguiram crescer e ampliar o número de pessoas ocupadas, logo contribuindo também para a redução da desocupação”, analisa William.

O setor público também alcançou o maior contingente da série, com 13,2 milhões de trabalhadores, estabilidade no trimestre e crescimento de 2,5% em um ano. Segundo o analista da pesquisa, William, as contratações municipais, sobretudo na educação, contribuíram para esse resultado.

Já o setor privado tinha 39,4 milhões de empregados com carteira assinada, sem considerar os trabalhadores domésticos, e 13,7 milhões sem carteira. Os dois grupos ficaram estáveis nas comparações trimestral e anual, assim como os trabalhadores por conta própria e os domésticos.

A taxa de subutilização ficou em 13%, estável no trimestre e abaixo dos 13,9% de um ano antes. O indicador abrange desempregados, pessoas que trabalham menos horas do que gostariam e aquelas que integram a força de trabalho potencial. Ao todo, eram 14,8 milhões de pessoas nessa condição.

Apesar da queda do desemprego, o desalento aumentou no trimestre. O número de pessoas que desistiram de procurar trabalho cresceu 7,5%, para 2,5 milhões, embora tenha recuado 6,8% em um ano. Também houve alta de 5,2% entre os que trabalhavam menos horas do que gostariam, para 4,3 milhões.

“A pesquisa aponta a dificuldade de as pessoas encontrarem trabalho que entendam ser adequado a elas, e isso se deu principalmente entre aqueles com 40 anos ou mais”, explica William, sobre o aumento do desalento.

BS20261030120105.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/10/30/desemprego-cai-para-52percent-e-chega-ao-menor-nivel-ja-registrado-em-setembro.ghtml

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