
Novo Desenrola: bancos precisam mandar até dia 30 as dívidas a serem compradas pelo governo
As instituições que não manifestarem interesse no prazo não poderão participar do leilão

Banco Central injeta US$ 3,75 bi no câmbio futuro e Tesouro recompra R$ 7 bilhões em títulos. A médio prazo, dizem analistas, anúncios sobre política fiscal e escolha de ministério devem influenciar nas cotações

Os mercados financeiros reagem, nesta segunda-feira, à inesperada vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições do domingo contra o senador Flávio Bolsonaro, o candidato de direita preferido pela maior parte dos analistas. O dólar comercial abriu em forte alta, de 8,65%, a R$ 5,42. As negociações foram interrompidas e, quando foram reabertas, pouco antes das 10h, o dólar chegou a R$ 5,60, alta de 12,2%. Depois de nova interrupção, o dólar voltou a ser negociado nas máximas de R$ 5,60 e, de novo, os negócios foram suspensos.
Pouco antes das 11h, os negócios foram reabertos com o dólar subindo 10,78%, a R$ 5,53. No auge, a alta de 12% na cotação de venda do dólar comercial superou até mesmo a variação intradiária do dólar médio (Ptax) em 1999, quando o Brasil abandou o regime de bandas cambiais e passou a adotar o câmbio flutuante. Em 15 de janeiro de 1999, no início da adoção do câmbio flutuante, o dólar subiu 11,10% considerando essa taxa média do dia (Ptax).
As negociações com ações da Bolsa de Valores de São Paulo também foram interrompidas após o Ibovespa, principal índice, cair mais de 10%. Depois dos negócios serem retomados, a Bolsa afundou a queda, para 17%.
Essa disparada do dólar e a queda forte da Bolsa acionaram o mecanismo conhecido como circuit breaker, usado nos mercados financeiros e que paralisa as negociações em momento de variações muito bruscas para dar tempo para os investidores reverem seus planejamentos.
Diante da forte volatilidade dos juros futuros, cujas negociações também chegaram a ter circuit breaker o Tesouro Nacional anunciou intervenção no mercado de títulos públicos. Ao todo, o Tesouro recomprou R$ 7,067 bilhões em títulos prefixados (NTN-F). Após o leilão do Tesouro, as taxas de juros nos contratos privados recuaram.
Em outra frente, o Banco Central atuou no câmbio, em leilões de swap cambial, numa operação que, na prática, injetou US$ 3,75 bilhões no mercado futuro de dólares. Depois da atuação do BC, a alta do dólar perdeu fôlego e, por volta das 12h30, a moeda americana era cotada a R$ 5,4135, em alta de 8,42%.
Na sexta-feira, antes do segundo turno, o dólar comercial fechou a R$ 4,99.
Simon Quijano-Evans, estrategista sênior para mercados emergentes da Macro Hive, espera que o real se recupere gradualmente após esse estresse inicial. Ele cita as restrições à capacidade de Lula de implementar uma política fiscal significativamente mais expansionista, os elevados juros reais no Brasil e o amplo diferencial de juros em relação aos Estados Unidos, além da expectativa de que o Banco Central mantenha uma postura cautelosa.
Analistas avaliam que, após o estresse dos primeiros dias, o mercado tende a acompanhar as decisões de governo do Lula para avaliar o potencial de médio e longo prazo para Bolsa e dólar:
“Mesmo com esse pessimismo prevalecendo a curto prazo, é preciso observar como as pautas econômicas vão avançar no médio prazo. Após a eleição de 2022, houve um certo pessimismo com o retorno de Lula. Mas 2023 foi positivo para a Bolsa após a aprovação do novo arcabouço fiscal. O projeto foi aprovado, o ânimo melhorou e, depois, a Bolsa foi bem. Por isso, precisamos acompanhar como o governo vai se organizar para 2027. Esse é o ponto para o qual mais chamamos atenção”, escreveu, em relatório Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Relatório do banco americano Goldman Sachs, assinado pelos economistas Alberto Ramos e Panteleymon Semka, destaca que Lula terá de governar com um Congresso de maioria conservadora e, ainda, que o presidente terá capital político será limitado, uma vez que não poderá disputar a reeleição em 2030.
Por isso, afirmam, após um esperado ajuste significativo dos preços nesta segunda-feira, “a direção dos mercados dependerá provavelmente das declarações sobre a política econômica” e também sobre as escolhas para o ministério, sobretudo quem será o titular da Fazenda e “de uma apresentação mais precisa da estratégia de consolidação fiscal para os próximos quatro anos”.
“Também será essencial divulgar um levantamento detalhado e transparente do custo fiscal das medidas e promessas de campanha, bem como das revisões e dos ajustes necessários no Orçamento de 2027”.
Após o fechamento das urnas, mesas de operação de grandes bancos e corretoras se preparam para um dia de fortes ajustes na Bolsa e no câmbio nesta segunda-feira.
A corretora Monte Bravo havia estimado que o Ibovespa poderia despencar 11% na primeira hora de negociação em caso de vitória de Lula. Em uma pesquisa do Citigroup com 73 investidores, publicada na sexta-feira, a maioria esperava que esse resultado levasse a uma queda de pelo menos 5% do real, com as taxas de swap subindo mais de um ponto percentual, à medida que operadores desmontassem as apostas em cortes de juros que haviam acumulado após Flávio Bolsonaro superar Lula no primeiro turno, no início deste mês.
— Vai ser um dia duro. O mercado vai reprecificar tudo o que foi prometido — disse Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, que administra R$ 1,1 trilhão em ativos. — Todo mundo foi pego de surpresa. Todo mundo está tentando entender.
Lula, que na visão dos mercados dificilmente promoverá a austeridade fiscal de que o Brasil precisa para reduzir os juros, obteve 51,79% dos votos no segundo turno. Flávio teve 48,21%.
Por ora, os investidores se preparam para o que Homin Lee, estrategista da Lombard Odier em Cingapura, chamou de reversão “inevitável” da alta que tinha sido impulsionada pela vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno.
A corretora Monte Bravo estima que o índice de referência da Bolsa brasileira, o Ibovespa, poder cair mais de 10% na primeira hora de negociação.
Em uma pesquisa do Citigroup, com 73 investidores, publicada na sexta-feira, a maioria esperava que a derrota de Bolsonaro levasse a uma queda de pelo menos 5% do real, com as taxas de juros futuros subindo mais de um ponto percentual, à medida que os investidores descartarem as apostas em cortes de juros que haviam feito após Bolsonaro ultrapassar Lula no primeiro turno, no início deste mês.
Com a vitória de Lula, “espera-se que todos deem um passo atrás”, disse Cathy Hepworth, que chefia a equipe de dívida de mercados emergentes da gestora de ativos PGIM, da gigante americana Prudential, com US$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão.
“Haverá uma reprecificação muitos significativa, talvez por um tempo.“Mas ainda é o Brasil, e Lula é um animal político, então as coisas acabarão se estabilizando, disse ela.
Guilherme Abbud, CEO da Persevera Asset Management, diz que movimentos de queda tendem a envolver mais pânico e ordens motivadas por emoções”, disse Abbud.
— Lula poderia eventualmente adotar uma abordagem mais cautelosa em relação aos gastos públicos, mas é improvável que o mercado lhe dê o benefício da dúvida.
Os investidores, em grande parte, estavam posicionados para uma vitória de Bolsonaro depois que sua surpreendente liderança no primeiro turno das eleições, no início deste mês, desencadeou uma forte alta, atraindo bilhões em fluxos estrangeiros na expectativa de um aperto fiscal muito solicitado, que permitiria a redução das taxas de juros no futuro.
Empresas como UBS Global Wealth Management, Morgan Stanley, JPMorgan Chase. e Citigroup correram para emitir recomendações otimistas para os ativos brasileiros.
À medida que as pesquisas continuavam a apontar para um segundo turno apertado, com Lula implementando uma série de medidas favoráveis aos eleitores e Flávio Bolsonaro anunciando medidas econômicas incongruentes, muitos começaram a reforçar suas estratégias de proteção para resguardar seus portfólios. Mas uma vitória de Bolsonaro ainda era vista como o cenário mais provável.
Desde que retornou ao poder em janeiro de 2023, Lula tem buscado melhorar a vida dos trabalhadores brasileiros, impulsionando o consumo e dando continuidade à expansão do crédito. Mas ele fez pouco para lidar com o crescente déficit do país, que, segundo a maioria dos economistas, é a razão pela qual a nação tem algumas das taxas de juros reais mais altas do mundo.
Ainda assim, os mercados brasileiros seguiram, em última análise, um cenário positivo durante seu terceiro mandato. A taxa de desemprego caiu a níveis inéditos e a renda médias dos trabalhadores cresceu.
As altas taxas de juros, embora restritivas para a economia, tornam a moeda atraente para investidores que buscam manter suas posições em um cenário de dólar mais fraco e afastamento dos mercados americanos, o que contribuiu para impulsionar os mercados emergentes de forma mais ampla.
BS20261026120000.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/10/26/bolsa-e-dolar-nesta-segunda-feira-mercados-reagem-a-reeleicao-de-lula.ghtml

As instituições que não manifestarem interesse no prazo não poderão participar do leilão

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