SAÚDE

Estudo revela como a gravidez muda o cérebro para viver a maternidade e criar vínculo com o bebê

23 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Via cerebral é afetada por hormônios que são determinantes para o prazer no cuidado com o recém-nascido

Imagem ilustrativa de mulher grávida — Foto: Magnific

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, mostrou como a gravidez mexe com o cérebro da mulher para viver ou “aguentar” a maternidade. As mudanças são cruciais para que a mãe sinta os cuidados com um recém-nascido como gratificantes, e não como simplesmente necessários. Para Rosie Brown, Jenny Clarkson e Michael Perkinon, professores do Departamento de Fisiologia na universidade, essas mudanças ocorrem em diferentes mamíferos.

Na pesquisa que acabam de publicar, com estudo em camundongos, os professores identificaram parte do circuito cerebral que impulsiona o impulso da mãe de interagir com seu recém-nascido. Esta via é ativada pelos chamados hormônios da gravidez, como o lactogênio e o placentário, além da prolactina, hormônio produtor de leite. Esta parte do cérebro conecta estes hormônios à rede de recompensa dele.

— Focamos em uma região cerebral chamada área pré-óptica medial, conhecida há décadas como um controlador-chave dos comportamentos parentais. Muitos de seus neurônios carregam receptores para lactógeno e prolactina placentários. Em estudos anteriores, mostramos que camundongos sem esses receptores nessa região não conseguiam cuidar de seus filhotes após o nascimento. O que ainda não estava claro era exatamente como esses neurônios ajudavam a impulsionar o comportamento parental — explicam eles, em artigo publicado na plataforma The Conversation e no jornal britânico The Independent.

No estudo, camundongos fêmeas que entravam em contato com filhotes mostraram uma resposta muito mais forte quando haviam dado à luz. A partir disso, os pesquisadores rastrearam para onde esses neurônios enviam seus sinais, mostrando que um subconjunto desses neurônios se conecta diretamente ao sistema de recompensa do cérebro, desencadeando a liberação de dopamina, o neuroquímico que ajuda a tornar as experiências gratificantes.

A partir de então, essa via do cérebro foi ativada artificialmente, fazendo que as fêmeas que nunca tiveram filhotes passassem a ter uma conexão de cuidado com eles. Por outro lado, quando a mesma via foi bloqueada nos camundongos que deram à luz, elas se comportavam sem criar vínculos com os filhotes.

— Embora nosso trabalho tenha sido realizado em camundongos, as mesmas vias de recompensa são encontradas em mães humanas, sendo a prolactina o principal hormônio produtor de leite em todos os mamíferos. O cérebro humano sofre mudanças enormes e duradouras durante a gravidez, mas pouquíssima pesquisa em neurociência tem focado nas mulheres, e ainda menos para analisar como a gravidez causa mudanças no cérebro — avalia o artigo.

A pesquisa busca mostrar que mães que possuem dificuldades de vínculo com seus bebês podem refletir vias cerebrais que não se adaptaram como o esperado durante a gravidez, o que demanda mais compreensão, apoio e tratamento em determinado período, para os autores.

Os professores destacam ainda que, segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 13% das mulheres que acabaram de dar à luz apresentam algum transtorno mental, principalmente depressão, número que costuma ser mais alto nos países em desenvolvimento.

— Nossa pesquisa busca entender como o cérebro se adapta durante a gravidez e conectar o início da maternidade a apoio e humor saudável, com o objetivo de desenvolver melhores formas de prevenir e tratar a má saúde mental no período periparto — completam os autores.


BS20260723070045.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/07/23/estudo-revela-como-a-gravidez-muda-o-cerebro-para-viver-a-maternidade-e-criar-vinculo-com-o-bebe.ghtml

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