POLÍTICA

Gilmar chama Mendonça de ‘pixuleco eleitoral’ e sai em defesa de Gonet

17 de setembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Decano critica retirada do sigilo de conversas no caso Master e afirma que diálogos não apontam irregularidades cometidas pelo procurador-geral da República

Ministro decano Gilmar Mendes durante sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) para decidir sobre caso Alexandre de Moraes no último dia 15 — Foto: Rosinei Coutinho/STF

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou o colega André Mendonça e afirmou que ele agiu como “boneco de campanha” e “pixuleco eleitoral” ao retirar o sigilo de conversas que mencionavam o procurador-geral da República, Paulo Gonet, nas investigações sobre o Banco Master. Em nota, o decano disse que os diálogos não apontam qualquer conduta ilícita do chefe da PGR e manifestou solidariedade a ele.

Segundo Gilmar, Gonet tem “reputação ilibada” e uma trajetória pública marcada pela lisura, reconhecida inclusive por aqueles que discordam de suas posições. Para o ministro, a divulgação das conversas causou um dano à imagem do procurador-geral que não poderia ser reparado posteriormente. Outras mensagens mencionam a inclusão do chefe da PFR

“Ninguém desfaz manchete com reparo tardio em plenário”, afirmou.

Gonet foi citado em mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro. Segundo o relatório da corporação, ao receber por intermédio do advogado Ciro Soares um convite para participar de um evento organizado pelo banqueiro em Londres, em 2025, o procurador-geral teria respondido: “Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan (um tipo de uísque)!”. No dia seguinte, Ciro informou a Vorcaro que Gonet havia perguntado se o filho poderia acompanhá-los na viagem, ao que o empresário respondeu: “Óbvio, né”.

Um ano antes, o chefe da PGR havia participado, ao lado do banqueiro e de outras autoridades, de uma degustação de charutos e uísque Macallan realizada durante um fórum jurídico patrocinado pelo Banco Master na capital britânica. Gonet nega ter mantido uma relação de proximidade com Vorcaro e afirma que o encontrou apenas uma vez, em um ambiente coletivo. Até o momento, as mensagens divulgadas não demonstram que o procurador-geral tenha praticado alguma irregularidade.

Na nota, Gilmar menciona a sessão realizada na terça-feira, quando Mendonça reconheceu a correção da conduta de Gonet e afirmou que não havia elementos contra o procurador-geral. O decano questionou, então, a decisão de expor as conversas.

“Quem atesta a honra de alguém só depois de tê-la arrastado pela praça pública não está corrigindo um erro: está confessando que ele era evitável”, declarou.

O decano do STF e Gonet mantêm uma relação de longa data. Ao lado do jurista Inocêncio Mártires Coelho, os dois fundaram, em 1998, o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), hoje denominado Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa. Em agosto de 2017, Gonet, que também lecionava na instituição, vendeu sua participação e deixou a sociedade.

Gilmar também criticou a publicação de um vídeo nas redes sociais em que Mendonça agradeceu o apoio recebido. Na avaliação do ministro, a manifestação evidenciou uma tentativa de obter ganhos políticos com o episódio.

“Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral”, disse.

O decano também comparou o episódio a supostas práticas adotadas durante a Operação Lava-Jato. O ministro citou o ex-procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sergio Moro e afirmou que ambos transformaram o “vazamento seletivo” em método para criar fatos consumados, influenciar a opinião pública e dificultar o exercício do direito de defesa.

O decano relacionou ainda o momento da retirada do sigilo à proximidade do 7 de Setembro. Para ele, a divulgação teve como objetivo “inflar as ruas”, obter dividendos políticos, atingir reputações e intimidar quem se opõe ao método adotado.

“Instituição séria respeita o devido processo desde o primeiro ato”, afirmou.

Ao final, Gilmar manifestou “integral solidariedade” a Gonet e declarou que o país e suas instituições são devedores da “coragem, da seriedade e da correção” do procurador-geral.

Leia o texto na íntegra:

“Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, tem reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita. Isso nunca foi objeto de disputa: é reconhecido em todos os espectros, por quem concorda e por quem discorda dele. Mesmo assim, teve a honra injustamente manchada pelo levantamento do sigilo de conversas que nada de ilícito retratavam. E, naquele exato momento, o estrago à reputação já estava feito. Ninguém desfaz manchete com reparo tardio em plenário.

Ainda assim, assistimos na terça-feira a uma cena lamentável. Em plenário, o próprio relator reconheceu, em alto e bom som, a lisura da conduta de Gonet e admitiu que nada havia contra ele. Nada. Então por que expor? Quem atesta a honra de alguém só depois de tê-la arrastado pela praça pública não está corrigindo um erro: está confessando que ele era evitável.

E não foi só isso. A intenção de lucrar politicamente com o episódio ficou escancarada quando o relator fez publicar vídeo nas redes sociais agradecendo o apoio popular. Apoio a quê, exatamente? A um ato que ele mesmo admitiu não ter fundamento contra a pessoa exposta? Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral.

Já vimos esse filme. Na Lava Jato, Deltan Dallagnol e Sergio Moro transformaram vazamento seletivo em método. A ideia era sempre criar o fato consumado antes da ação penal, colher os dividendos políticos e deixar a defesa correndo atrás de um julgamento que a opinião pública já havia feito. Linchamento coletivo serve para esvaziar o direito de defesa e enterrar a presunção de inocência.

E, como na Lava Jato, a hora nunca é ao acaso. Lá, sigilos caíam a poucas semanas das eleições. Aqui, o levantamento apareceu às vésperas do 7 de Setembro, para inflar as ruas, arrancar dividendos políticos, sujar reputações e intimidar quem se opõe a esse método. No fundo, o alvo é o direito de defesa de pessoas contra as quais esses agentes nutrem algo que se parece muito mais com vingança do que com justiça.

Instituição séria respeita o devido processo desde o primeiro ato.

A Paulo Gonet, minha integral solidariedade. O Brasil e as instituições são devedores da coragem, da seriedade e da correção de homens como ele.”

BS20260917113330.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/17/gilmar-acusa-mendonca-de-agir-como-pixuleco-eleitoral-e-presta-solidariedade-a-gonet.ghtml

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