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Esforços estão perdendo força pelo mundo, e objetivo de eliminar a Aids como problema de saúde pública até 2030 está cada vez mais longe

O número de novos casos de HIV caiu 42,9% no mundo desde 2010, mostram novos dados apresentados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, nesta segunda-feira, durante a Conferência Internacional da AIDS (AIDS 2026), que ocorre no Rio de Janeiro com apoio do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
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A queda, no entanto, está distante do necessário para alcançar a meta de eliminar a síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids) como uma ameaça de saúde pública até 2030. Além disso, na contramão global, o Brasil aparece entre os 21 países que viram o número de novas infecções aumentar em mais de 20% no mesmo período.
Pelo mundo, foram registrados 1,2 milhão de novos casos em 2025, uma redução significativa em relação aos 2,1 milhões notificados 15 anos antes e o menor número desde o início da epidemia. Porém, para estar no caminho de alcançar as metas estabelecidas para 2030, deveriam ter sido somente 200 mil novas infecções, um milhão a menos.
— Houve um enorme progresso desde 2010, mas ainda estamos longe dos objetivos. Ainda assim, do ponto de vista científico, a meta é realista. Se olharmos para o que a ciência tem a nos oferecer hoje, ela é alcançável. Mas, do ponto de vista político, enfrentamos desafios. Tudo depende de escolhas políticas. Se as escolhas certas forem feitas, sim, podemos eliminar a Aids como ameaça à saúde pública até 2030 — defende a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima.
Ao todo, 41 milhões de pessoas no mundo viviam com HIV no ano passado. Hoje, o tratamento antirretroviral consegue manter o vírus sob controle, sem que o caso evolua para a Aids, estágio mais avançado da infecção. Por isso, nem toda pessoa que vive com HIV desenvolve a Aids. A meta do Unaids é reduzir as novas infecções e as mortes relacionadas à Aids em 90% até 2030, em comparação com os níveis de 2010.
No Brasil, os números do último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde mostram que foram notificados 39,2 mil novos casos de HIV em 2024, uma alta de 21,9% em relação ao registrado uma década antes. Em 2025, eram 29,4 mil infecções contabilizadas até setembro. Estima-se que quase 1,7 milhão de brasileiros vive com HIV hoje.
Junto ao Brasil, os outros 20 países que viram o número de novas infecções subir de forma significativa foram: Afeganistão, Argélia, Armênia, Bangladesh, Congo, Costa Rica, Egito, Iêmen, Madagascar, Níger, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Quirguistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Tunísia e Venezuela.
Na região da América Latina, entre 2010 e 2025, as novas infecções por HIV aumentaram 25%. Para Winnie, combater esse avanço não é uma questão centrada em recursos financeiros, mas em “direitos humanos e acesso com dignidade” aos serviços de saúde:
— Como costumo dizer, o HIV é uma doença impulsionada pela desigualdade. Esta não é uma região pobre, mas é profundamente desigual. E na América Latina, as novas infecções ocorrem principalmente entre populações-chave. E as razões por trás disso estão relacionadas a estigma, discriminação, violência sexual e falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Se enfrentarmos esses problemas, o HIV poderá ser controlado na região em pouco tempo.
Por outro lado, sete países do mundo alcançaram uma redução acima de 78% nos novos casos entre 2010 e 2025 e estão mais próximos da meta para 2030: Benim, Essuatíni, Quênia, Lesoto, Nepal, Ruanda e Zimbábue.
Em relação às mortes ligadas à Aids, o novo relatório mostra que também houve avanço a nível global, porém novamente de forma insuficiente considerando as metas. Foram 570 mil óbitos no ano passado, 57% a menos que os 1,3 milhão de 2010. É o menor número em 30 anos, mas são 400 mil mortes a mais que o objetivo.
Outras melhorias observadas na resposta ao HIV/Aids envolvem a cobertura de prevenção da transmissão vertical, que chegou a 87% das gestantes em 2025, contra 51% em 2010, e do tratamento antirretroviral entre as pessoas que vivem com HIV, que foi de 78% ano passado, contra apenas 24% observado 15 anos antes.
Nesse período, também houve uma queda de 59% no número de novos casos na África Subsaariana, região que respondeu por cerca de metade das novas infecções por HIV no mundo em 2025, e de 69% no de novas infecções pediátricas. Ao todo, os programas de prevenção da transmissão vertical evitaram quase 4,8 milhões de casos de HIV em crianças entre 2000 e 2025.
Das metas chamadas de 95-95-95 (95% dos pacientes identificados, 95% deles recebendo tratamento e 95% desses com carga indetectável, ou seja, sem transmitir o vírus), o mundo está em 88-89-95. Só 11 países bateram as três metas simultaneamente em 2025. O Brasil alcançou duas: mais de 95% de testagem para HIV e de supressão viral. Além disso, em dezembro do ano passado, o país recebeu a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV, o primeiro com mais de 100 milhões de habitantes a conseguir o feito.
Mas os esforços globais têm perdido força devido a “crises convergentes, incluindo a redução do financiamento externo, o elevado endividamento dos países mais afetados pelo HIV, o número crescente de crises humanitárias e de deslocamentos populacionais em todo o mundo, o surgimento de epidemias como o Ebola e os retrocessos nos direitos humanos e na igualdade de gênero, fatores que afetam os serviços relacionados ao HIV”, segundo o relatório.
Uma das questões-chave é o financiamento internacional, que caiu 18% em 2025, a maior queda para um único ano já registrada, impulsionada pelos cortes ao programa de ajuda humanitária americano feitos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Os efeitos já são sentidos na prática. A testagem para HIV caiu 22% em países com alta carga da infecção, o financiamento para programas de distribuição de preservativos diminuiu 93%, e os recursos destinados a iniciativas que garantem o acesso das pessoas aos serviços de prevenção foram reduzidos em 80%.
— Os impactos são visíveis especialmente no continente africano, onde estão os países de baixa renda e alta carga da doença, que dependem fortemente da ajuda internacional. Organizações comunitárias que lideravam a oferta de prevenção, tratamento e outros serviços estão fechando. A testagem está diminuindo. Estamos vendo a possibilidade de aumento das novas infecções nos próximos anos. É um momento em que corremos o risco de reverter grandes avanços conquistados — afirma a diretora executiva do Unaids.
Um dos entraves é garantir o acesso às novas ferramentas de prevenção ao HIV. Hoje, a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) consiste majoritariamente em comprimidos diários destinados a pessoas que não vivem com o vírus, mas estão sob maior risco de contaminação. No Brasil, essa estratégia é ofertada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2017.
O Brasil aumentou em 41% o número usuários da PrEP no ano passado, passando de 165 mil para 233 mil pessoas. A eficácia é alta, de quase 100%, mas o uso diário dificulta a adesão pelo mundo. O relatório aponta que Camarões, Nigéria e Zâmbia, por exemplo, tiveram uma redução de mais de 50% no número de pessoas que recebiam a PrEP apenas em 2025.
Nesse contexto, duas novas ferramentas que oferecem proteção a longo prazo são consideradas promissoras para ampliar o acesso à prevenção ao HIV: o lenacapavir, injeção semestral da farmacêutica Gilead Sciences, e o alimatravir, pílula mensal da MSD. O desafio é garantir o alcance, já que são fármacos ainda protegidos por patente.
No caso do lenacapavir, o laboratório firmou parcerias para a produção de genéricos em determinados países com alta carga do HIV. De acordo com o Unaids, 51 mil já receberam o medicamento em nove países da África Subsaariana. A América Latina, no entanto, ficou de fora.
— Essa é uma grande oportunidade, a ciência entregou resultados. Mas inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. Precisamos ver mais acordos de licenciamento para permitir a produção de genéricos. Também precisamos que os governos estejam preparados para comprar esses medicamentos e disponibilizá-los à população. Precisamos de vontade política e de empresas que façam a coisa certa, concedendo licenças para permitir a produção em larga escala e a redução dos preços — defende Winnie.
BS20260727170008.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/07/27/hiv-novos-casos-caem-43percent-no-mundo-desde-2010-mas-crescem-no-brasil-alerta-unaids.ghtml

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