POLÍTICA

Indígenas vão ao TSE para exigir transporte no dia da eleição; sete estados relataram queixas

22 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) pede revisão de solicitações negadas e mobilização de veículos, embarcações e apoio federal para o segundo turno

Indígena vota em cabine da Justiça Eleitoral durante votação em comunidade indígena. — Foto: TRE-AM

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) entrou com uma ação nesta quinta-feira no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em caráter de urgência, para que a Corte determine a adoção de medidas para garantir transporte gratuito a eleitores indígenas no segundo turno das eleições, marcado para o próximo domingo. A entidade aponta relatos de dificuldades em sete estados e solicita que pedidos negados ou não atendidos sejam reavaliados, com a mobilização de veículos, embarcações e apoio logístico federal para assegurar o deslocamento até os locais de votação.

O pedido de providências foi apresentado à Corregedoria-Geral da Justiça Eleitoral e tem como um dos principais exemplos a situação de 43 comunidades da Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. A 42ª Zona Eleitoral do estado, com sede em Atalaia do Norte, negou uma solicitação da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) para oferecer transporte fluvial gratuito, alimentação e água potável aos eleitores de sete polos-base do território.

Na decisão, a Justiça Eleitoral reconheceu a relevância constitucional do direito de voto dos povos indígenas, mas apontou o encerramento dos prazos para planejamento do transporte, a ausência de dotação orçamentária e as dificuldades logísticas para justificar o indeferimento. Os trajetos fluviais necessários variam de 321 a 895 quilômetros e podem exigir de três a cinco dias de navegação, ou mais.

A petição da APIB destaca que o transporte das urnas eletrônicas, dos mesários e dos técnicos para os nove locais de votação da zona rural de Atalaia do Norte é realizado por aeronaves das Forças Armadas, em razão das barreiras de acesso. Para a organização, a estrutura mobilizada para levar os equipamentos e as equipes eleitorais evidencia o desafio de garantir que os próprios eleitores cheguem às urnas. A Univaja estima que a abstenção indígena no Vale do Javari, de 30% a 35% no primeiro turno, possa alcançar 50% no segundo.

Sete estados relataram problemas no primeiro turno

Além do Amazonas, a petição menciona dificuldades em Minas Gerais, Mato Grosso, Amapá, Pernambuco, Pará e Mato Grosso do Sul. O Ministério Público Eleitoral registrou, em ofício de 13 de outubro citado no documento, relatos de eleitores indígenas que deixaram de votar no primeiro turno por falta de transporte adequado em Minas Gerais, Mato Grosso, Amapá, Pernambuco e Amazonas. A APIB também relata problemas enfrentados pela comunidade Yanomami do Rio Aracá, na região do Rio Negro; pela Aldeia Uberaba, do povo Guató, em Corumbá (MS); e por aldeias Munduruku dos territórios Sawre Muybu e Sawre Ba’pim, no médio Tapajós, no oeste do Pará.

O documento cita ainda dificuldades no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e em diferentes municípios do Amazonas. Entre as informações reproduzidas pela entidade está a de que cerca de 7 mil pessoas de Lábrea (AM) não teriam comparecido às urnas por problemas de transporte. Os casos são apresentados pela APIB como parte de um problema recorrente na prestação do serviço eleitoral às comunidades indígenas.

Para o segundo turno, a organização pede que os órgãos eleitorais recebam e processem solicitações de transporte de forma simplificada, inclusive por meios eletrônicos, no prazo de 48 horas. A proposta prevê a revisão de pedidos indeferidos ou não atendidos e a adoção de providências nas localidades em que houve falta ou insuficiência de transporte no primeiro turno. A entidade também solicita a flexibilização dos prazos eleitorais para essas situações e a requisição de veículos e embarcações, com combustível e tripulação.

A APIB quer ainda que a União, os estados e os municípios colaborem com a operação e que seja solicitado, quando necessário, o apoio logístico da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. A petição prevê o fornecimento de alimentação e água potável aos eleitores cujos deslocamentos exijam esses recursos, além da divulgação de itinerários, pontos de embarque e horários em linguagem acessível às comunidades.

Além das medidas emergenciais, a organização propõe a elaboração de um plano nacional para garantir o transporte eleitoral indígena. Entre as medidas sugeridas estão o levantamento do número de eleitores por aldeia, das distâncias até os locais de votação e das condições de acesso, além da previsão de orçamento específico e da avaliação da instalação de seções eleitorais nas aldeias ou nas proximidades, quando viável. A proposta é que o plano seja elaborado em até 120 dias, após consulta prévia às comunidades indígenas.

MPF também aciona a Justiça Federal

O Ministério Público Federal (MPF) também recorreu à Justiça para garantir condições de votação aos povos indígenas no segundo turno. Em ação civil pública apresentada nesta quarta-feira à Justiça Federal em Belém, o órgão pediu que a União assegure, em todo o país, transporte gratuito por rios, estradas e vias aéreas, além de alimentação, intérpretes, facilitadores culturais e placas em línguas indígenas nos locais de votação.

A ação reúne relatos de comunidades do Pará que não conseguiram votar no primeiro turno por falta de transporte. Os Araweté, da Terra Indígena Ipixuna, em Altamira, ficam a cerca de 250 quilômetros da seção eleitoral. Os Arara da aldeia Iriri, na Terra Indígena Cachoeira Seca, estão a 380 quilômetros, enquanto os Parakanã da aldeia Kema’o, na Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu, precisariam percorrer aproximadamente mil quilômetros, sobretudo por rios, para chegar ao local de votação.

O MPF também cita dificuldades em outros estados, incluindo a falta de combustível para indígenas Yanomami no Amazonas e a ausência de intérpretes para eleitores Tiriyó e Katxuyana, no Amapá. No Mato Grosso do Sul, o órgão aponta que apenas 21 dos 227 eleitores de uma seção na Terra Indígena Taunay/Ipegue compareceram às urnas no primeiro turno.

Entre os pedidos estão o repasse emergencial de recursos às prefeituras para custear veículos, embarcações e combustível, a articulação com a Funai, a Secretaria Especial de Saúde Indígena, as Forças Armadas e a Polícia Federal e o ressarcimento de comunidades que tenham pago pelo deslocamento dos eleitores. O MPF solicita multa diária de R$ 1 milhão em caso de descumprimento injustificado de eventual decisão judicial e a criação de um plano nacional de acessibilidade logística e linguística eleitoral indígena para as próximas eleições.

BS20261022142653.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/22/indigenas-vao-ao-tse-para-exigir-transporte-no-dia-da-eleicao-sete-estados-relataram-queixas.ghtml

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