ECONOMIA

Ministro da Fazenda diz que discutir com Lula medidas fiscais após viagem à Turquia: ‘Não há fórmula mágica’

6 de novembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Durigan deu a declaração após reunião com o presidente no Palácio da Alvorada

O ministro da Fazenda, Dario Durigan — Foto: Washington Costa/MF

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira que as medidas fiscais em estudo pela equipe econômica serão levadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois que ele voltar da viagem internacional que começa na próxima semana, com passagem pela COP31, na Turquia. Durigan falou à imprensa a pedido de Lula, após uma reunião do presidente com integrantes do governo, ex-ministros e economistas no Palácio da Alvorada, e disse que o encontro tratou de diagnóstico e de caminhos, mas não de medidas específicas.

— Não nos parece haver fórmula mágica, e sim manutenção dos compromissos fiscais. Então, um compromisso de seguir melhorando as contas públicas, com a manutenção e reforço do que precisa ser reforçado nas regras fiscais atuais, de modo que a gente siga melhorando tanto indicadores sociais, políticas públicas, quanto o resultado das contas públicas do governo — disse o ministro.

A reunião ocorreu um dia depois de o Copom interromper o ciclo de queda dos juros e manter a Selic em 13,75% ao ano, e em meio à pressão de petistas sobre o Banco Central e à expectativa do mercado financeiro por um plano crível de contenção de despesas (veja a lista de presentes abaixo).

Segundo o ministro, o encontro foi a primeira de uma série de conversas — Lula deve ouvir também empresários e representantes do mercado. Depois disso, a Fazenda e o Planejamento vão consolidar as propostas:

— A gente vai trabalhar com método, ministro Bruno Moretti (do Planejamento) e eu, para que a gente afunile, enderece as medidas, eventuais medidas que o presidente referende, pra gente apresentar isso no retorno do presidente da viagem.

Lula embarca no dia 9 para Antália, na Turquia, onde participa da conferência do clima, e segue para as Filipinas; a volta ao Brasil está prevista para 16 de novembro. Segundo aliados, só depois disso ele deve começar a definir a composição ministerial do quarto mandato.

Durigan disse que o diagnóstico foi “bastante convergente”. Entre os pontos positivos, citou o desemprego na mínima histórica e a inflação sob controle. Entre os desafios, listou a taxa de juros, o cenário internacional de guerra, com pressão sobre os combustíveis, e o impacto disso no custo de vida.

Questionado se o grupo concluiu que é preciso ajustar parâmetros do arcabouço fiscal — a regra que limita o crescimento das despesas e fixa metas para as contas públicas — para estabilizar a dívida, o ministro repetiu que não se discutiram medidas. Mas afirmou que, se o objetivo é ter superávit nos próximos anos, “nós estamos necessariamente falando em reforçar as regras vigentes hoje”.

O projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 prevê superávit primário de 0,5% do PIB (R$ 73,2 bilhões) para o governo central no próximo ano, subindo para 1% em 2028, 1,25% em 2029 e 1,5% em 2030. O resultado primário é o saldo entre receitas e despesas, sem contar os juros da dívida. Em setembro, relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, apontou riscos para o cumprimento da meta de 2027 na proposta de Orçamento.

— Nós acabamos de sair de um segundo turno de eleição, há uma série de levantamentos a serem feitos, estudos pela minha equipe, pela equipe do ministro do Planejamento, Bruno Moretti. Nós estamos cumprindo etapas – disse.

O ministro afirmou que o mercado “vai saber que não tem nenhum motivo para receio” e que “quem investe e quem produz no país não vai ter nesse governo nenhum problema, nenhuma dificuldade com relação a previsibilidade, regras claras”.

Reunião no Alvorada

Participaram da reunião no Palácio da Alvorada, além de Durigan , o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ex-ministro Fernando Haddad e economistas, em meio às discussões sobre novas medidas de ajuste fiscal. Integrantes do governo afirmam que essa é uma primeira rodada de encontros em que Lula pretende ouvir opiniões sobre a conjuntura econômica do país.

A expectativa é de novas reuniões ouvindo outros economistas e também empresários.

Para a esta quinta-feira, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o secretário-executivo do Ministério do Planejamento, Guilherme Melo, e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega também foram chamados.

Participam ainda os economistas Laura Carvalho e Eduardo Moreira, de viés mais progressista. O encontro foi marcado de última hora por Lula e não está na previsão da agenda presidencial. A reunião ocorre um dia depois do Banco Central interromper o ciclo de corte de juros na quarta-feira, ao manter a Taxa Selic em 13,75% ao ano.

Veja a lista de presentes:

  • Geraldo Alckmin
  • Dario Durigan
  • Miriam Belchior
  • Bruno Moretti
  • Esther Dweck
  • Aloizio Mercadante
  • Fernando Haddad
  • Guido Mantega
  • Luciano Coutinho
  • Eduardo Moreira
  • Laura Carvalho

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, não foi chamado para o encontro devido ao período de silêncio do Copom. Este é o intervalo de tempo em que o presidente e os diretores do BC estão proibidos de fazer declarações públicas, dar entrevistas ou comentar sobre a economia, taxas de juros (Selic), câmbio ou a decisão do comitê. O período inicia uma antes do Copom e fecha uma semana depois da divulgação.

Interlocutores do presidente avaliam que não há previsão que medidas de ajuste fiscal sejam anunciadas após encontro, segundo eles, Lula está numa fase de escuta. Esta é a primeira rodada de uma reunião de Lula mais ampliada sobre temas econômicos, até então, o petista vinha optando por ter essas conversas em um núcleo restrito.

Pronunciamento

Lula gravou um pronunciamento para ser exibido em rede de rádio e televisão no próximo domingo. Como mostrou o colunista do GLOBO Fabio Graner, o presidente deve evidenciar que está preocupado com a trajetória de crescimento da dívida pública e reforçar seu compromisso com o cenário de melhora nos resultados primários previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias.

A ideia é mostrar que o governo vai trabalhar para criar condições para a queda de juros, o que ajuda a conter a dívida, mas sem abdicar dos compromissos sociais do governo. Segundo relataram interlocutores do governo, não está previsto anúncio de medidas específicas e a ideia do pronunciamento é ser algo bem mais amplo do que a agenda econômica, um discurso de pacificação e agradecimento pela vitória nas urnas.

Efetivamente, Lula tem discutido com seus principais auxiliares medidas para fortalecer o cenário de alcance da trajetória fiscal indicada na LDO – que prevê um superávit de 0,5% do PIB em 2027 –, sem prescindir dos compromissos sociais.

Uma das ideias mais avançadas é ampliar a capacidade de contingenciamento do governo e viabilizar que a gestão das contas mire o centro da meta de resultado primário e não mais o limite inferior. Isso pode acabar significando um aumento de valores congelados do orçamento ao longo de sua execução, ainda que isso dependa também do comportamento da receita.

A discussão sobre o ajuste fiscal ocorre em meio ao avanço da dívida pública durante o terceiro mandato de Lula. Segundo dados do Banco Central, a dívida bruta do governo geral passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em dezembro de 2022, antes da posse do petista, para 82,9% em setembro deste ano, o equivalente a R$ 11,1 trilhões. O aumento de 11,2 pontos percentuais levou o endividamento ao maior patamar desde 2021, pressionado principalmente por gastos com juros e déficits nas contas públicas.

Apesar do mau humor do mercado financeiro desde a sua eleição, Lula evita sinalizar nomes para sua equipe econômica no quarto mandato. Aliados avaliam que ele só deve apontar os auxiliares a partir do fim do mês.

Quem já esteve com Lula depois do segundo turno das eleições também afirma que ele não dá pistas sobre nomes, mas tem demonstrado interesse pelo noticiário econômico e pelas especulações sobre o futuro da equipe econômica.

Nesta quinta-feira, o ministro da Fazenda disse que levará a Lula “cenários e propostas” sobre as medidas que o governo poderá adotar nas próximas semanas. Questionado se o ajuste será anunciado ainda neste ano, Dario Durigan confirmou que as medidas serão divulgadas neste período, mas que a definição deve ficar para depois da volta de Lula da viagem à Turquia, na COP 31.

— Esse ano é muito tempo, nos próximos dias o presidente vai estar focado na preparação da COP 3. A gente vai seguir debatendo, seguir levando propostas, mas quando o presidente voltar da viagem dele, a gente deve ter mais informações.


BS20261105185519.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/11/05/ministro-da-fazenda-reuniao-de-lula-com-economistas.ghtml

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