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Em entrevista exclusiva ao GLOBO, diretor-geral da OMS fala sobre acordo de pandemias, reformas feitas na entidade, crise do Ebola e por que seguirá colaborando com os EUA mesmo após a saída da entidade

O primeiro diretor-geral africano da história da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, de 61 anos, ainda tem entregas a fazer antes de finalizar no ano que vem. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, no Rio, ele afirmou que suas prioridades são o avanço na reforma financeira da entidade e a conclusão do anexo do Acordo de Pandemias — o chamado PABs, cuja função é organizar o compartilhamento rápido de informações sobre agentes com potencial pandêmico, além da distribuição justa de medicamentos e vacinas.
No cargo desde 2017, Adhanom enfrentou crises de grande calibre. Uma delas, a Covid-19, maior emergência de saúde do século,e a saída dos Estados Unidos da instituição, no início desse ano. “Eles vão voltar”, avalia. Além desses temas, o líder tem usado sua voz para reforçar a necessidade de ajuda humanitária para quem está sob os efeitos de conflitos armados. E lembra que o atual surto de Ebola, na República Democrática do Congo (RDC), é difícil de controlar justamente por estar em uma área conflagrada. Na conversa, ressaltou que esse tema o toca profundamente, pois também cresceu em meio à guerra e lida com efeitos de transtorno de estresse pós-traumático. “Eu odeio guerras porque sei o que elas significam e o que fazem sentir”, diz. Ao fim da entrevista, tirou um documento de seu paletó sorridente: “É meu cartão do SUS!”,disse sobre o presente que ganhou na visita ao país, encerrada na quinta-feira.
O Brasil pode ter muitos papéis, mas vou te falar três. Primeiro, a rede de cuidados de saúde do SUS é única. Outros países podem aprender com o Brasil. A segunda parte é que, como você sabe, durante a Covid-19 tivemos um problema de equidade, especialmente de vacinas. E a Fiocruz trabalha com produção local, são milhões de doses. O Brasil pode ajudar nessa falha na distribuição equitativa. Por fim, há o trabalho com o presidente Lula no Acordo de Pandemias, para prevenir as próximas. Ele foi concluído, mas não será ratificado sem o anexo PABS. O Brasil está liderando a negociação e pode contribuir para concluí-la. Para mim, a propósito, a contribuição do Brasil na saúde global é um tema pessoal. Quando fui Ministro da Saúde, tive um benefício na relação com a Fiocruz. Isso foi em 2006. Isso são três coisas numa longa lista, para ser sincero.
Por conta da minha própria experiência em 2006, eu tenho contado a história do SUS. Não apenas por conta do programa de análise (em parceria com a Fiocruz), mas também quando fui Ministro de Saúde e construía o serviço de saúde primária (na Etiópia), um dos países que escolhi para observar as melhores práticas foi o Brasil.
Eu já estava fazendo isso e continuarei fazendo, porque o SUS é muito importante. É baseado na saúde como um direito humano e fundamental. Saúde não é para poucos nem para a maioria. Saúde é para todos.
O número de casos caiu mais de 40% desde 2010. O progresso é incrível. E temos hoje o lenacapavir (um medicamento de prevenção que permite a proteção por meses), que vai trazer uma mudança de cenário. Mesmo com tudo isso, nossa preocupação é com o corte de financiamentos.
Não só dos EUA, mas de muitos países. Normalmente se fala do corte de recursos dos EUA, mas outros países também o fizeram. Isso vai reverter os ganhos. Estamos muito, muito preocupados.O progresso foi significativo, mas será afetado. Então, diante dos cortes de financiamento, da tensão geopolítica em geral e da fraqueza na liderança global, não acho que vamos alcançar esse objetivo de 2030. Me desculpe, tenho que lhe dar essa má notícia. Nesse ambiente atual, será muito difícil. Precisamos começar a pensar em outra estratégia que vá além de 2030.
Os países que podem ser mais afetados são os países em conflito, porque a necessidade humanitária é muito alta. No Sudão, 33 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária. Na Ucrânia são 10 milhões. Em Gaza, a população toda, então 2,1 milhões. Essas pessoas precisam de apoio diário. Qualquer corte de fundos as afeta diretamente. E mesmo os países em desenvolvimento são afetados. Muitos países, porém, dizem que agora devem usar essa crise para encontrar soluções locais.
A situação é profundamente preocupante. O vírus teve vantagem no começo porque circulava sem ser detectado. E essa vantagem se mantém pela complexidade do ambiente em que a epidemia acontece, com conflitos e pessoas desalojadas. E há fome lá. Quando você fala de Ebola para eles, a resposta é: “Ok, mas nós temos fome. E o conflito? Vão nos ajudar a ter a paz?”. O sistema de saúde é muito fraco, difícil de detectar os casos. Para controlar o surto, temos aspectos técnicos necessários. Só que precisamos de acesso (às pessoas); um cessar-fogo ali seria útil. Porque sem isso é difícil até detectar quem teve contato com pessoas infectadas. Se não acelerarmos as ações para andar na frente do vírus, ele pode se espalhar para países vizinhos,como o Sudão do Sul. Ao mesmo tempo, quero dizer que para o resto do mundo é baixo. Não há motivo para pânico se você conhece a história do Ebola. Desde 1976 apenas 30 casos foram identificados fora de suas áreas de crise.
Sim, quando há uma emergência, o fluxo de financiamento melhora, porque as pessoas ficam em pânico. Em situações crônicas, o fundo de financiamento fica mais lento. A gente, como OMS, tem que ajudar as pessoas a lidar com todos os problemas de saúde que tiverem, sejam quais forem. Se não, é como ouvi de uma pessoa: “não é um apoio porque se importam,mas porque estão com medo de que o problema (de saúde) atravesse fronteiras e afete o resto do mundo”.
Essa é a parte mais difícil. Quando criança, eu vivi a guerra. Posso sentir como crianças em situação de guerra se sentem. Seja em Gaza, Sudão, Iêmen, na Ucrânia…Você deve conhecer o transtorno de estresse pós-traumático (Tept). Quando vejo sofrimento dessas pessoas em áreas de conflito, minhas memórias desses momentos tornam-se muito claras. Posso senti-las. É por isso que eu digo: a paz é o melhor remédio. Eu sempre digo que os mais corajosos escolhem a paz. Qualquer conflito que exista, há sempre uma solução política. Eu odeio guerras porque sei o que elas significam e o que fazem sentir.
Não vejo as coisas em termos de legado. Vejo em termos de: vamos fazer tudo o que for possível quando há problemas a resolver. Tentamos e fizemos nosso melhor. Informamos o mundo com base em evidências. Claro, há desafios e fraquezas. E aprendemos com eles. São dez áreas que identificamos para melhorar a preparação global para o futuro. Um desses é que a capacidade de produção (de medicamentos e vacinas) dos países é fraca. Entre outros. É por isso que precisamos do Acordo de Pandemias. Quando acontece uma pandemia, você faz o seu melhor, com base no que a ciência evolui, e depois aprende lições com isso. E o mundo estará melhor preparado com o acordo de pandemia como PABS, que o Brasil lidera as negociações. Quero inclusive agradecer ao Brasil por sua liderança.
Focarei, nesse último ano, na sustentabilidade financeira da OMS. Porque apenas se você é financeiramente independente, você é realmente independente. Até mesmo como indivíduo. A OMS tem sido dependente de doadores individuais há muitos anos. Por isso propusemos diversificar nossa base de doadores. Uma das medidas foi pedir aos estados-membros para aumentar a taxa que eles pagam. O orçamento total financiado por eles passou de 14% para 50%. Duas parcelas já foram pagas pelos países, em 2023 e 2025. Eles concordaram em pagar cinco; faltam três. É uma reforma de 2017 a 2031. Esse é meu foco. E o outro foco é a conclusão do PABS no acordo de pandemia.
Sim, eles vão voltar. Eu estava em Tenerife quando ajudamos na situação do surto de hantavírus em um navio. Fizemos as evacuações médicas. E a maioria dos passageiros ali era do Reino Unido e dos EUA… Mesmo que eles (os EUA) queiram ir, não vão conseguir. Porque a humanidade está mais próxima do que nunca. A única opção que você tem nesse cenário é lutar como um inimigo comum, como um vírus, juntos. Não tem como sair dessa plataforma criada há 80 anos. Mesmo que não nos deem dinheiro, os apoiaremos. Nossa missão é a humanidade. Espero que reconsiderem e voltem. Eles não têm boas razões para sair. Todas as razões que eles dão na ordem executiva (do Governo Trump, para deixar a entidade) não são boas para sair. Eles falam que não fizemos reformas, mas as reformas que temos feito nos ajudaram, inclusive, a lidar com a saída deles.
BS20260731073015.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/07/31/o-sus-e-unico-outros-paises-podem-aprender-com-o-brasil-diz-tedros-adhanom-da-oms-em-entrevista-exclusiva.ghtml

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