CULTURA

Primeira edição da Semana Niemeyer Brasília Week, em dezembro, vai celebrar 120 anos de nascimento do arquiteto

10 de agosto, 2026 | Por: Agência O Globo

Inspirada em encontros e feiras como as de Milão e Miami, evento tem origem em lei sancionada há duas semanas

Congresso Nacional – Senado Federal e Câmara dos Deputados — Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Em Brasília, os traços do arquiteto Oscar Niemeyer se misturam à vida de quem atravessa o Eixo Monumental, caminha pela Esplanada, contempla as colunas externas que contribuem para a sensação de leveza do Palácio do Planalto ou observa o fim da tarde tingir de laranja o céu do Cerrado. Essa convivência ganha agora um novo capítulo.

Uma lei sancionada há duas semanas criou a Semana Niemeyer Brasília Week, que passará a fazer parte do calendário de eventos da capital e terá sua primeira edição de 11 a 20 de dezembro, abrindo as comemorações dos 120 anos de nascimento de Niemeyer (1907-2012). A escolha do mês não é casual: o arquiteto nasceu em 15 de dezembro e morreu em 5 de dezembro.

Construída em 41 meses pelos candangos — como ficaram conhecidos os milhares de operários, vindos de todo o país, que ergueram a nova capital — Brasília nasceu do encontro entre o plano urbanístico de Lúcio Costa e os palácios de Niemeyer, e foi reconhecida pela Unesco em 1987 como Patrimônio Cultural da Humanidade, o maior conjunto arquitetônico do século XX a receber o título.

Prêmio e Ano Niemeyer

É esse acervo que a Semana Niemeyer pretende colocar no centro da festa. Ele inclui o Teatro Nacional Claudio Santoro, com painéis externos do artista Athos Bulcão, e a Catedral Metropolitana de Brasília, com seus 16 pilares de concreto que formam uma parábola apontando para o céu para lembrar mãos em oração.

A programação, em elaboração pelo Instituto Niemeyer, prevê a quinta edição do Fórum Mundial Niemeyer, que já passou pelo Rio de Janeiro, por São Paulo e por Brasília. Outras atividades ainda serão divulgadas. A inspiração, segundo os organizadores, vem dos grandes encontros e feiras internacionais, de Davos às feiras de design de Milão e Miami.

A ideia é que a capital federal concentre, uma vez por ano, uma agenda global de arquitetura, urbanismo, arte e design, com participação de delegações estrangeiras. As ações devem ocorrer no Pavilhão de Exposições no Parque da Cidade. O evento já conta com apoio institucional do Instituto Guimarães Rosa, órgão responsável pela política cultural do Ministério das Relações Exteriores, que em carta destacou o potencial do projeto de adensar as relações entre o Brasil e o mundo e de divulgar a originalidade da cultura brasileira.

A Semana Niemeyer marcará ainda duas estreias de fôlego maior. A primeira é o Prêmio Global Niemeyer, com dez categorias — de arquitetura e urbanismo a meio ambiente, ciência e tecnologia, artes e projetos comunitários — e inscrições que, segundo o Instituto, serão abertas a candidatos do mundo inteiro já nesta edição. A segunda é o lançamento do Ano Niemeyer, guarda-chuva das celebrações de 2027, que prevê o selo “Niemeyer 120 anos” e ações no Brasil e no exterior.

À frente do projeto está Paulo Niemeyer, bisneto do arquiteto e presidente do Instituto Niemeyer, entidade que criou ao lado do bisavô para gerir seu legado. Ele costuma dizer que a ideia nasceu de uma inquietação: a de que o arquiteto mais celebrado do século XX seria mais reverenciado no exterior do que em casa. Agora, com a transformação da Semana em lei, a expectativa dele é que a celebração tenha continuidade.

— Se eu morrer daqui a dez anos, o Brasil continuará realizando (a iniciativa) — afirma.

As iniciativas devem ressaltar um desdobramento da construção da capital federal que muitas vezes é esquecido, diante das obras de Niemeyer: o impulso que deu ao desenvolvimento do design nacional, que passou a se tornar uma atividade profissional estruturada no país.

Novos nomes do design

O projeto da nova capital exigiu uma identidade visual, móveis e soluções espaciais totalmente novas para os prédios modernistas, rompendo definitivamente com a dependência estética de estilos europeus clássicos. Os palácios de desenho mais leve e mais transparentes de Niemeyer exigiram mobiliário com leveza igual, com o uso de couro, palha e também madeiras nobres brasileiras, como o jacarandá.

Foi a partir de Brasília que começaram a se destacar, na esteira de Niemeyer e de Lúcio Costa, ícones do design nacional, como Sérgio Rodrigues, Jorge Zalszupin e José Zanine Caldas. Em parceira com a filha, Anna Maria, Niemeyer também criou peças de mobiliário para a capital federal.

E a divisão por quadras e setores, além de levar à criação de siglas que causam estranheza em quem não mora em Brasília, resultou em um sistema de sinalização urbana mais limpo e funcional que influenciou o design gráfico brasileiro dali em diante.

Autora da lei distrital da Semana Niemeyer, a deputada Doutora Jane (Republicanos) vê na semana uma forma de aproximar a população do patrimônio da cidade e convertê-lo em oportunidade.

— O traço de Oscar Niemeyer está presente na paisagem, na história e na identidade de Brasília. Valorizar esse legado também é cuidar da nossa cidade, despertar nas novas gerações o sentimento de pertencimento e apresentar ao mundo toda a riqueza cultural da capital do país — diz a parlamentar.


BS20260809063020.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/08/09/primeira-edicao-da-semana-niemeyer-brasilia-week-em-dezembro-vai-celebrar-120-anos-de-nascimento-do-arquiteto.ghtml

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