Questão fiscal não é um problema só do Brasil, diz presidente executiva do Santander
4 de novembro, 2026
| Por: Agência O Globo
Ana Botín avalia que as dificuldades com recursos públicos acontecem porque países precisam mudar regras para uma economia digital
A presidente executiva do Santander, Ana Botín, participa do XXII Encontro Santander América Latina, realizado em Madri — Foto: Divulgação
A questão fiscal não é um problema exclusivo do Brasil, mas sim do mundo inteiro. Atualmente, os países enfrentam dificuldades fiscais porque tentam gerir uma economia digital com arcabouços e regras tributárias que ainda funcionam sob a lógica da era industrial, segundo avaliação da presidente executiva do Santander, Ana Botín, durante o XXII Encontro Santander América Latina, realizado em Madri, nesta quarta-feira.
— É preciso um novo contrato social e adaptações frente à transição demográfica e ao aumento da expectativa de vida da população, o que exige ajustes nos sistemas previdenciários e maior tempo no mercado de trabalho. Tenho confiança de que o Brasil saberá fazer esses ajustes em seu modelo. A questão fiscal não é um problema exclusivo do Brasil, mas sim do mundo inteiro — disse Botín, lembrando que fazer reformas estruturais no Brasil ou na Europa “custa muito” e exige grande esforço.
Ela pontuou que os países precisam alinhar os sistemas previdenciários à maior longevidade da população, citando que a Espanha já elevou a idade de aposentadoria para 67 anos, enquanto países vizinhos mantêm a idade em 60. Para ela, permitir que as pessoas trabalhem mais tempo é fundamental para manter as garantias sociais.
— Onde está a arrecadação? Como se arrecada? Na era industrial e na era digital é muito diferente — disse em conversa com jornalistas.
Botín afirmou que o governo do presidente Lula tem oferecido mostras importantes de confiança para os mercados. Ela ressaltou, por exemplo, que o Brasil possui um Banco Central “igual ou mais independente que qualquer país desenvolvido” e que não há dúvidas de que a instituição seguirá atuando de forma rigorosa e autônoma.
No Brasil, ganhou corpo nos últimos dias uma discussão em que impor uma redução na taxa de juros do Banco Central poderia resolver o problema do crescimento da dívida pública, que vem sendo criticada por economistas ortodoxos e de mercado. O economista André Lara Resende (ALR) propõe um teto para a taxa de juros básica, que ao longo de 12 meses seria reduzida pelo BC para 7,5% ao ano.
Botín também elogiou a solidez das instituições do Brasil e seu sistema de checks and balances (freios e contrapesos), em que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário controlam e limitam uns aos outros para evitar abusos e manter o equilíbrio institucional.
A presidente executiva do Santander enfatizou que o mercado e o Brasil sempre melhoram lentamente, independentemente de quem esteja no poder. Ao comparar a situação atual com uma década ou duas atrás, ela destacou que o país está em uma posição substancialmente melhor — tanto em relação ao seu ponto de partida quanto ao contexto internacional — e que as reformas estruturais seguem a direção correta.
Como prova dessa confiança no ambiente de negócios e no modelo do país, a executiva citou a oferta feita aos acionistas minoritários do banco, que envolve a injeção adicional de vários milhões de dólares no Brasil em uma visão de médio e longo prazos.
O Santander está conduzindo uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) voluntária de permuta para adquirir aproximadamente os 10% restantes do capital do Santander Brasil (SANB11) que ainda não pertencem à controladora espanhola. A ideia é simplificar a estrutura de operação do banco. Os acionistas minoritários que aceitarem a proposta entregarão suas ações do Santander Brasil em troca de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) da matriz espanhola do banco Santander.
Mais crédito novo para a América Latina
Com 12 milhões de clientes na América Latina, Botín anunciou para 2027 a oferta de €100 bilhões em créditos novos para a região, para todos os tipos de clientes e projetos. Ela disse que a região é fundamental para o banco e destacou que a América Latina tem posição privilegiada no mundo atual.
— A América Latina tem os recursos que o mundo necessita, tem indústria diversificada, empreendedorismo e talento — afirmou a executiva.
Ela disse que o banco prevê a expansão de sua plataforma digital (Openbank) para a Colômbia e o Peru, e futuramente para o Brasil, utilizando uma estrutura global integrada para reduzir custos por unidade e competir com instituições digitais e globais. O Santander lançou o Openbank no México e já conta com 1,6 milhão de clientes.
A expectativa é que ele se torne um produto digital de ponta, à altura das melhores fintechs do mundo. Ela disse que a estratégia do banco nos EUA integra a oferta do banco digital Openbank, com a estrutura de um banco comercial completo. O Openbank já está operacional nos Estados Unidos e a plataforma já acumula US$ 11 bilhões em depósitos no país.