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Após Elisa receber o diagnóstico na novela, médico explica como identificar a síndrome e por que o diagnóstico costuma demorar

O diagnóstico de fibromialgia da personagem Elisa (Isabela Garcia) no capítulo de segunda-feira (6) de “Quem ama cuida” levou para milhões de telespectadores uma condição que afeta cerca de 3% da população brasileira, o equivalente a aproximadamente 6,4 milhões de pessoas.
Marcada por dores generalizadas e persistentes, a fibromialgia ainda é cercada por dúvidas e preconceitos, principalmente porque não pode ser confirmada por exames laboratoriais ou de imagem. Por isso, especialistas avaliam que a abordagem da doença em uma novela pode ajudar a ampliar a conscientização e incentivar pacientes a procurar atendimento médico.
— A abordagem da fibromialgia em uma novela de horário nobre é um marco positivo e necessário. Ver a própria dor validada na tela ajuda a reduzir o forte estigma que esses pacientes enfrentam perante a sociedade e a família, o que por si só já traz um alívio terapêutico — explica Dr. Carlos Trindade, especialista em Medicina da Dor Intervencionista, mestre pela USP e coordenador da Afya Educação Médica Curitiba.
O especialista, no entanto, faz um alerta para que o diagnóstico seja sempre realizado com critério. Segundo ele, diferentes condições podem provocar sintomas semelhantes aos da fibromialgia, como dores miofasciais, compressões nervosas e deficiências metabólicas. Por isso, uma investigação médica cuidadosa é fundamental para definir a causa da dor e indicar o tratamento mais adequado.
— A mensagem clínica que deixo é direta: não aceite um diagnóstico genérico sem uma investigação profunda. A dor crônica é complexa, e ter o diagnóstico preciso é o único caminho para tratar a verdadeira causa, e não apenas remediar o sintoma.
Entenda mais sobre a doença abaixo:
A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica generalizada caracterizada por dores musculoesqueléticas difusas. Ela é compreendida como uma síndrome de sensibilização central, resultante de alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso central. Embora a causa exata ainda não seja completamente definida, há evidências robustas de disfunção nos mecanismos de modulação da dor, com envolvimento de neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e glutamato.
A síndrome acomete principalmente mulheres entre 30 e 50 anos, embora possa surgir em qualquer idade e também afetar homens.
Segundo o médico especialista em dor Carlos Trindade, a doença está relacionada a uma alteração na forma como o sistema nervoso central processa os estímulos dolorosos.
— O cérebro deixa de ser um receptor passivo de estímulos e passa a gerar a experiência dolorosa por conta própria — explica ele, completando: —Quando os sintomas começam a se sobrepor de forma persistente, especialmente em momentos de estresse físico ou emocional, é sinal de que o sistema nervoso central começou a processar a dor de forma amplificada.
Os primeiros sinais costumam ser confundidos com estresse, cansaço ou outras doenças, o que faz com que muitos pacientes passem anos em busca de um diagnóstico. Entre os sintomas mais frequentes estão:
dor muscular difusa, que pode mudar de intensidade e localização;
fadiga intensa e persistente;
distúrbios do sono e sono não reparador;
rigidez ao acordar;
alterações cognitivas (conhecidas pelos pacientes como “névoa mental”)
dificuldade de concentração e lapsos de memória;
sensação constante de cansaço;
ansiedade
depressão
sintomas gastrointestinais.
— Ela começa com sinais que parecem desconexos e justamente por isso são ignorados por anos. Os principais marcadores são o sono não restaurador (a pessoa dorme oito horas e acorda exausta), fadiga desproporcional, dor muscular que muda de lugar a cada semana, rigidez matinal que melhora com o movimento e algo que os pacientes chamam de névoa mental: dificuldade de concentração, lapsos de memória e sensação de “câmera lenta” — afirma Trindade.
Ao contrário do que muita gente imagina, não existe um exame específico capaz de confirmar a fibromialgia. O diagnóstico é clínico. Também é necessário descartar outras doenças que podem provocar manifestações semelhantes.
— Não existe exame de sangue ou imagem que feche o diagnóstico, isso é algo que o paciente precisa entender. O diagnóstico é baseado em alguns critérios, que avaliam a distribuição da dor pelo corpo, a duração mínima de três meses dos sintomas e a presença de manifestações como fadiga, distúrbio do sono e sintomas cognitivos — diz o médico.
Não há cura definitiva para a fibromialgia, mas o tratamento pode reduzir significativamente os sintomas e melhorar a qualidade de vida. A abordagem costuma ser multidisciplinar e inclui:
atividade física regular e gradual;
fisioterapia;
terapia cognitivo-comportamental;
melhora da qualidade do sono;
manejo do estresse;
medicamentos específicos, quando indicados.
Especialistas ressaltam que o exercício físico continua sendo a intervenção com melhores evidências científicas para o controle da síndrome.
— O paciente precisa entender que, quem espera um remédio resolver, não melhora. A fibromialgia exige uma reorganização do estilo de vida, não um remédio diário: sono regular e profundo, atividade física graduada, nutrição anti-inflamatória, manejo do estresse e suporte multiprofissional. Cura, no sentido clássico, não existe; o que existe é a remissão clínica sustentada, na qual pacientes bem tratados podem passar anos com sintomas mínimos ou ausentes — conta o médico especialista.
O tratamento é multidisciplinar, focado no alívio dos sintomas e na melhoria da qualidade de vida. Ele geralmente combina medicamentos (como analgésicos e moduladores do sistema nervoso) com a prática regular de exercícios físicos, que ajudam a diminuir a dor e a fadiga.
— O tratamento se sustenta em frentes integradas, não em uma única intervenção. Na medicamentosa, o papel é pontual, com antidepressivos duais, anticonvulsionantes específicos e moduladores de sono. Na frente comportamental, atividade física regular e de baixo impacto, regulação do sono, terapia cognitivo-comportamental e manejo do estresse. Já na frente metabólica e nutricional, é preciso corrigir deficiências nutricionais, reduzir inflamação sistêmica de baixo, dar suporte ao eixo intestino-cérebro e modular a resposta ao estresse via ritmo circadiano. São intervenções complementares — diz Dr. Carlos.
Em julho do ano passado, foi sancionada a Lei nº 15.176, que atualizou o enquadramento legal da fibromialgia no Brasil. Em vigor desde 20 de janeiro, o texto estabelece que a condição pode ser reconhecida como deficiência, desde que haja avaliação individualizada e laudo médico que comprove limitações funcionais significativas. O novo enquadramento não altera a natureza clínica da doença, mas representa um avanço no reconhecimento de seu impacto social e funcional.

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