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Depois de sair de cena por conta de estafa e crise existencial que a fez duvidar do próprio talento, cantora estreia show acolhida pelo repertório de Elis Regina e ao lado do filho Antonio; assista à entrevista da artista no ‘Conversa vai, conversa vem’, nesta terça-feira, 18h

Um burnout tirou Maria Rita de cena por quase dois anos. Era um quadro de saúde que já ela vinha arrastando, mas que se tornou insustentável em 2024, após o roubo do caminhão com todo o equipamento de show, investimento de mais de 20 anos.
O prejuízo financeiro e emocional fez a cantora “quebrar”. E dá-lhe terapia para sacudir a mistura de estafa com uma crise existencial que a fez duvidar do próprio talento e tremer diante do público. Foi preciso buscar, como define, “o colo da mãe”.
É acolhida pelo repertório de Elis Regina que retorna aos palcos na turnê “Redescobrir vol. 2”, a partir de sábado (18), em Brasília, segue pelo país até dezembro, passando pelo Rio de Janeiro em 10 de outubro. Maria Rita participou do “ Conversa vai, conversa vem”, videocast do GLOBO que vai ao ar nesta terça-feira (14), no Youtube e no Spotify. Leia trecho da entrevista:
Muita coisa. Ela não estava no meu horizonte. Vivia um momento profissional e pessoal desafiador. Um dia, estava olhando para o nada, sem rumo, sem entender o que tinha feito de errado e me veio a imagem de um palco branco e eu de vermelho, no centro. Foi um recado mesmo. Bem no período em que o caminhão com minha carga de equipamento foi roubado. Aquilo mexeu muito comigo. Já estava me sustentando com pouco e, com o assalto, eu quebrei. Levei um tempo para até perceber que aquela imagem era um colo, um coração pulsante em cima do palco. Diante de tantos questionamentos, só uma pessoa poderia me fortalecer. Foi uma busca consciente pelo colo da minha mãe.
É um show para mim, das questões do ofício de cantar num mercado em constante mutação. O vermelho é o coração pulsando, com imperfeições, desafios, oscilações, ansiedades, mas também com amor, família, todo o simbolismo de um coração criando, vivendo e sobrevivendo. Canto “Maria Maria” chorando porque me sobe um nó… me leva para um outro lugar agora.
O diagnóstico de um burnout pesado. Quando, veio continuei trabalhando, o que não recomendo. A sensação era das coisas saindo do controle afetivo, emocional de mim mesma no palco, da paixão, da entrega. Isso começou a me escapar e virou uma bola de neve. Porque veio uma crise existencial, me senti uma mentira. Nunca parei de entregar o que meus fãs estão acostumados, mas olhava aquele roteiro no chão e falava: “O que eu estou fazendo? Que enganação eu sou”. Não é a síndrome da impostora, que também já tive, era mais complicado…
Medo de dar boa noite para o público, de não lembrar de letra, de travar na boca do palco. Aí falei: “Caralho, mano, se eu não parar…”. Essa turnê me ajuda nesse lugar de colo, de ressignificar sentenças, poesias, melodias, de me permitir. Então, fiz tudo que queria, de um jeito bem exibido, enchendo meus olhos para encher os do público também.
Nesse caso, não. Mas é um desafio brutal. Porque são canções que marcaram não só a mim como filha, mas o arranjador, o trombonista que cresceu ouvindo, o outro que estudou aquele repertório, o músico que nunca soube, mas sempre teve o sonho de tocar com a minha mãe. É difícil deslocar na sonoridade porque há uma identidade forte. Ainda tem a mão do meu pai (César Camargo Mariano, pianista e arranjador) nos arranjos. E agora estou tocando com meu filho (Antonio Baldini toca violão e percussão), aquela barriga virou um músico (risos)!
Amo essa história. Elas não se conheciam. E Rita estava presa, grávida. Minha mãe, furiosa com uma mulher como a Rita presa, fez um escarcéu na delegacia até soltarem ela, darem comida e água para a grávida. Elas ficaram melhores amigas de infância naquele momento. Brincavam que eram amigas de internato. Rita chamava minha mãe de Maria Elis, e minha mãe chamava ela de Maria Rita.
Minha minha mãe tinha certeza que eu seria menino e quando nasci. Quando viu que era uma menina, se levantou da maca recém-parida, deu um tapa na mão do médico para me ver e não largou mais esse bebê. Foi uma paixão louca.
Quando eu tinha uns 8 anos, uma amiga na escola um dia falou: “Uai, por que você não acredita em Deus?”. E eu: “Vou acreditar num cara que tira o mamãe de uma criança?”. Então, teve, sim. Fui percebendo a grandeza de Deus a natureza. Por isso o O candomblé faz tanto sentido pra mim. A partir do momento que desenvolvo essa relação com o orixá, entendo a força maior de uma vida. A energia entre as pessoas que a energia da minha mãe está aqui. Não sei se acertei as contas desse roubo que vivi tão pequena. Mas aprendi a aceitar que alguma coisa vem disso e que a alguma coisa precisa sair dessa situação tão traumatizante, desse rompimento. Que seja esse cuidar dela, conseguir mantê-la viva de alguma forma.
Sim. Uma tristeza que eu acolho, mas cuido só para ela não me paralisar. A gente cresce dessas coisas. A solidão ensina. O silêncio, a sombra são necessários. A sombra só existe porque tem luz. Então, na sombra dá para buscar a luz. É um processo, que às vezes leva décadas. Mas dento de tudo que poderia ter acontecido comigo em decorrência desse rompimento brutal, está tudo bem. Não sofri depressão, meu caráter não modificou. Não roubo, sou uma pessoa honesta, tenho orgulho de trabalhar. Mas às vezes cansa ser forte o tempo inteiro.
A questão de não abordar mais o assunto é nessa comparação agressiva, que diminuiu muito, mas tem. Se você tivesse feito isso, me reservaria o direito de levantar e sair daqui. Porque é brutal. Se minha mãe fosse viva, não permitiria. Por mais competitiva que tenha sido enquanto artista. Era uma realidade daquela época. Sou filha dela, que me tirou da mão do médico e não largou mais. Vou catar ela no meu colo, não largo e não permito mais isso.
A mãe é minha! Tá no RG, gente, para de torrar minha paciência, já deu, é cansativo. De novo esse assunto? E não precisa gostar, é só respeitar.
Vira e mexe, amigos da minha mãe, meu pai mesmo apontam isso: “Fez a cara da sua mãe agora’. Estou conversando com amigos, puxo um caderninho da bolsa para anotar alguma coisa. “Putz, sua mãe faz igual”. Tem umas coisas que não sei te dizer se vi, se guardei ou se é só a genética, mas que acontece entre mim e ela. Uma vez viralizou um áudio de ela falando do dia do trabalho, que ela não queria mais para patrão. E ela batia na mesa. Uma amiga me ligou rindo, achou que era eu porque o timbre era parecido quando escala para raiva… Tem uma coisa quando está insegura, tímida passa a mão no cabelo, quando vai falar.
Sim, você falou tudo. É mais chão. E não é invenção da minha cabeça. Porque a agressividade era tamanha, diziam ‘seu eu encontrar ela, encho de porrada, que corri o risco de desconfiar de mim e perdi minha mãe uma segunda vez. Então, não posso mais ouvir isso, porque já sei que é meu. Levou um tempo para eu entender que se estou incomodando, alguma coisa certa devo estar fazendo. Era assustador pela raiva e pelo ‘será que sou tão parecida assim?”. Então uma promessa para mim: “Se eu sentir que minha mãe vai morrer de novo. Eu paro”. Minha missão na vida é cantar. Se eu não cantar, vou ficar louca, sei que vou, mas não vou perder minha mãe de novo. Então, me afastei, tomei distância para não deixar ela morrer dentro de mim, para eu não ficar com raiva dela e da minha semelhança com ela. Refleti isso em mim. Hoje estou muito bem sendo quem eu sou.
Tenho ainda. Mas tive sorte de ter como meu primeiro grande aliado o Tom Capone, excelente produtor e amigo. Minha batalha nunca foi por bobagem, mas para pagar melhor os músicos, um hotel bom para todos, não subir ao palco enquanto não estiver com a voz aquecida. Fui levando. Com muita porrada e tapete puxado.
Eu tenho também. E eu sou mesmo. Mas nunca nunca xinguei ninguém (risos). Minha mãe não tinha escolha. Eram outros tempos, ela tinha um metro e meio, saiu do Rio Grande do Sul. Eu tenho 1m,58, morei em Nova Iorque, falo três idiomas. E já sou filha da Elis. Ela era filha da costureira. Mas você acha que você também carrega essa fama de temperamental.
Moleca. Brincando nasci com 30 anos e hoje estou com 18. De alma mesmo. O samba me abriu essa possibilidade. Assim como as canções da minha mãe. Sempre servi à música. Naquele espetáculo de 2012, entendi que a música tem que me servir também. Porque existem músicas e músicas, melodias e melodias, poesias e poesias. Me alimentou. O samba também teve esse lugar. Sempre fui muito na reverência, tinha um olhar intelectualizado, quase frio, do que é o samba para a nação brasileira. Do ter que entrar com muito respeito e tal. E, aí, fui muito bem recebida. Sambistas e a velha guarda viram alguma coisa em mim que eu mesma não tinha visto. Porque tinha esse filtros dos livros, da intelectualidade.
Não mandei tirar ainda (risos). Hoje a remoção é facinha (risos). Brincadeira, eu acho fundamentalmente que ser brasileira é divertido. Somos um povo bem doido, intenso, nossa música é incrível, nossa culinária. Outro dia minha, minha filha falou: “Mãe, gringo não tem brigadeiro”. E começamos a fazer uma lista do que gringo não tem. É uma aventura muito louca que, por enquanto, está valendo a pena.
BS20260714063037.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/07/14/essa-turne-e-a-busca-pelo-colo-da-minha-mae-diz-maria-rita-apos-burnout-que-a-afastou-dos-palcos-por-quase-dois-anos.ghtml

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