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Medida cautelar, publicada no final do mês passado, impede novas contratações, refinanciamentos e portabilidades pelo banco para servidores estaduais enquanto investigações sobre suspeitas de fraude financeira avançam

O governo de São Paulo suspendeu cautelarmente, no final do mês passado, a realização de novas operações de crédito consignado pelo Banco Digimais para servidores estaduais. A decisão, publicado no Diário Oficial, foi tomada menos de uma semana após a instituição financeira ser alvo da Operação Miragem, da Polícia Federal, que apura suspeitas de fraude contábil, manipulação de balanços e ocultação da real situação financeira do banco.
A decisão impede, até nova deliberação, a contratação de novos empréstimos, refinanciamentos e portabilidades pela instituição no sistema estadual de consignações.
A medida foi assinada pelo secretário de Gestão e Governo Digital, Caio Mario Paes de Andrade, com base na legislação estadual que prevê a adoção de medidas cautelares em situações de extrema urgência. Segundo o despacho, a suspensão busca preservar a segurança do sistema de consignações e proteger os servidores públicos enquanto perdurarem as investigações sobre o banco. Os contratos já existentes não são afetados pela decisão.
O Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, foi credenciado pelo governo paulista em 2025 para oferecer empréstimos consignados ao funcionalismo estadual, incluindo policiais militares. Após a deflagração da operação da PF, como mostrou O GLOBO, a oposição passou a cobrar explicações da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre a autorização concedida à instituição, que já enfrentava dificuldades financeiras.
O governo afirma que o credenciamento ocorreu por meio de procedimento público, sem contratação direta, e que o banco atendia aos requisitos exigidos na época, inclusive perante o Banco Central.
Na Operação Miragem, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão e obteve autorização judicial para bloquear até R$ 670 milhões em bens e valores dos investigados. Segundo a investigação, baseada em relatórios do Banco Central, o Digimais teria manipulado demonstrativos contábeis para aparentar solvência, supervalorizando ativos e utilizando uma estrutura de fundos para inflar artificialmente seu patrimônio.
O Digimais surgiu a partir da compra do Banco Renner, fundado em 1981, pela família de mesmo sobrenome. Edir Macedo adquiriu uma participação minoritária de 40% da instituição em 2009. Em 2020 o empresário assumiu o controle integral do banco, que passou a se chamar Digimais.
O banco digital passou a ter uma atuação agressiva no financiamento de veículos seminovos e crédito consignado. Após um breve início de crescimento acelerado, o Digimais começou a registrar prejuízos expressivos e alta inadimplência no pagamento de investidores.
Segundo as investigações, a carteira de veículos marcada em R$ 3,5 bilhões foi um ativos superavaliados, usados para maquiar o balanço do banco.
Em meio aos resultados negativos, o banco focou na oferta do consignado, em que as parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento.
Foi a partir de 2023 e 2024 que o Digimais começou a adotar práticas similares ao Banco Master, segundo a PF, com a oferta de títulos de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas acima de 110%, acima das praticadas pelo mercado.
Assim como a instituição de Daniel Vorcaro, oferta de investimentos com remuneração acima da média do mercado foi baseada na garantia de proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em janeiro de 2025, inclusive, o ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, anunciou a compra do Digimais. A operação, no entanto, não seguiu em frente, pois foi barrada pelo Banco Central (BC).
A PF aponta ainda que, com prejuízos sucessivos, Digimais passou a supervalorizar ativos para “maquiar” o balanço da instituição, e tentar driblar auditorias e a fiscalização das autoridades. Segundo a investigação, o banco teria trocado sucessivamente auditorias independentes para evitar que fossem registradas ressalvas nos papeis públicos do Digimais.
O relatório policial aponta que títulos antigos e sem valor da mineradora Vale foram avaliados em R$ 650 milhões, um terreno em Pernambuco marcado em R$ 150 milhões quando o seu valor real seria inferior a R$ 10 milhões, além da carteira de imóveis.
Em outro caso, dois ativos que somavam R$ 71 milhões foram reavaliados em seguida em R$ 174,5 milhões, inflando de forma artificial o bem.
O banco utilizou uma sucessão de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), como o Fundo Hermon, para mascarar a aquisição de direitos creditórios por valores muito superiores aos de custo.
Segundo a PF, em dezembro de 2025 o banco inflou em quase dez vezes o valor das cotas de fundos em seu balanço, contabilizando ativos que valiam R$ 71 milhões por R$ 741,348 milhões.
Os R$ 670 milhões supervalorizados foram bloqueados na Operação Miragem. A investigação indica que o banco usou uma estrutura de fundos para melhorar seus resultados contábeis.
BS20260714121121.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/14/governo-de-sp-suspendeu-novos-consignados-do-digimais-apos-operacao-da-pf.ghtml

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