Lula defende investigação sem transformar Moraes em adversário e adota cautela em uso eleitoral da crise no STF
16 de setembro, 2026
| Por: Agência O Globo
Lula tem indicado que não partirá para o ataque ao ministro que prendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro
Presidente Lula e Alexandre de Moraes (STF) e o ministro Alexandre de Moraes — Foto: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva seguirá defendendo investigação sobre suspeitas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, mas não deve avançar em ataques direcionados a Alexandre de Moraes, um dos protagonistas da crise na Corte e alvo do bolsonarismo. De acordo com aliados, Lula não está disposto a transformar o ministro em “adversário”, estratégia que contempla também um cálculo eleitoral.
Moraes enfrenta sucessivos desgastes na Corte após a revelação de mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro a ele. A crise na Corte tem trazido reflexos negativos à campanha petista e sido usada por Flávio Bolsonaro (PL) para fustigar Lula. Um grupo de aliados chegou a defender que Lula fizesse um gesto mais duro em direção ao ministro. Como mostrou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, Lula vem sendo aconselhado desde a semana passada por aliados próximos a “soltar a mão de Alexandre de Moraes”.
Lula, no entanto, tem indicado que não seguirá essa linha nem partirá para o ataque ao ministro que prendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros participantes da trama golpista do 8 de janeiro. Há uma avaliação na campanha de que uma artilharia contra Moraes não atrairia eleitores independentes, segmento que está sob disputa entre ele e Flávio, e que será mais eficaz apostar em temas da vida real cotidiana na população. Em entrevista nesta manhã, o presidente disse reconhecer que o custo de vida está elevado e listou ações do governo na tentativa de contornar isso.
Existe também a sensação de que aumentar o tom contra Moraes pode soar artificial e trazer prejuízos eleitorais. O desafio, portanto, é modular o tom, demonstrando incômodo com a crise, mas sem direcionar o foco a Moraes.
Em entrevistas, Lula têm repetido que o magistrado precisa pagar se for culpado, mas cita o nome dele ao lado de outros integrantes da Corte. Nesta manhã, disse também que não foi ele o responsável pela indicação de Moraes ao Supremo — o ministro está no STF desde 2017. Integrantes da campanha têm reforçado que é necessário que Lula repita que Moraes foi indicado por Michel Temer, para conter a associação que Flávio tem feito.
—Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar. Se o (André) Mendonça é culpado, ele tem que pagar. Se o (Edson) Fachin é culpado, ele tem que pagar. Todo mundo tem que estar à disposição do cumprimento da nossa Constituição. A lei acima de tudo e a verdade sempre soberana — disse ao SBT na semana passada.
Já nesta quarta-feira, ao programa Desce a Letra Show, no YouTube, Lula mirou seu principal adversário em todas as vezes que citou Moraes. Primeiro, acusou Flávio de ter “o rabo preso ao Banco Master” e disse que o adversário mantém uma “obsessão” com o ministro.
— A raiva dele do Alexandre de Moraes é porque ele mandou prender o cara que matou a Marielle. A bronca dele é que o Moraes prendeu o pai dele e os golpistas que tentaram fazer o 8 de janeiro — afirmou.
Também citou que Flavio está “nervosinho” com futuras revelações sobre Caso Master:
— Vou repetir aqui: acho que Alexandre de Moraes fez trabalho extraordinário para garantir a democracia nesse país prendendo Bolsonaro e os golpistas que estão com ele. Ele está nervosinho porque vai aparecer todas as falcatruas dele com Vorcaro, o churrasco, as bebidas, as mulheres e os 130 milhões que ele pegou.
Lula manteve uma relação amistosa com Moraes ao longo do seu terceiro mandato. Houve, porém, um afastamento entre ambos após a derrota de Jorge Messias no Senado a uma vaga no STF no final de abril. Na época, o presidente recebeu informações de aliados de que o ministro havia trabalhado contra a indicação de Messias à Corte.
Recentemente, no entanto, retomaram contato. O ministro foi um dos responsáveis por sua reaproximação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) em um jantar na noite de 4 de agosto na casa de Moraes, em Brasília. Moraes também integra a ala do Supremo mais próxima a Lula, formada por Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin.