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Presidente fará pronunciamento no próximo domingo, onde deve evidenciar que está preocupado com a trajetória de crescimento da dívida pública

Pressionado a apresentar medidas de controle das contas públicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ontem ministros, ex-auxiliares e economistas para discutir a conjuntura econômica do país. Na sequência, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as propostas em estudo só serão levadas ao petista depois que ele voltar da viagem internacional que começa na próxima semana, com passagem pela COP31, na Turquia.
No fim do dia, Lula defendeu responsabilidade fiscal e disse que, para atrair investimentos, a economia do país precisa estar “arrumada”, num tom similar ao que foi preparado para o pronunciamento marcado para domingo.
— Se a gente quiser atrair capital, temos que ter seriedade (…) É por isso que temos que ter responsabilidade jurídica, é por isso que temos que ter responsabilidade fiscal e é por isso que a gente não pode brincar de fazer parcerias. Esse projeto da criação do conselho é um instante de muita seriedade desse país— disse o presidente, num evento sobre minerais críticos.
Lula afirmou que há o entendimento de que é preciso atrair “pessoas interessadas em vir trabalhar conosco”:
— Para a gente atrair, vamos ter que ter uma economia arrumada. Ninguém vai querer fazer investimento numa economia totalmente desordenada. As pessoas querem saber se estamos falando sério e nós precisamos provar ao voto do dia 25 que valeu a pena o povo brasileiro fazer o que fez nas ruas e nas redes.
Lula gravou um pronunciamento para ser exibido em rede de rádio e TV no próximo domingo. O presidente deve evidenciar que está preocupado com a trajetória de crescimento da dívida pública e reforçar seu compromisso com o cenário de melhora nos resultados primários previstos.
A ideia é mostrar que o governo vai trabalhar para criar condições para a queda de juros, o que ajuda a conter a dívida, mas sem abdicar dos compromissos sociais do governo.
Segundo relataram interlocutores do governo, não está previsto o anúncio de medidas específicas, e a ideia do pronunciamento é ser algo bem mais amplo do que a agenda econômica, um discurso de pacificação e agradecimento pela vitória nas urnas.
Efetivamente, Lula tem discutido com seus principais auxiliares medidas para fortalecer o cenário de alcance da trajetória fiscal indicada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), sem prescindir dos compromissos sociais.
Uma das ideias mais avançadas é ampliar a capacidade de contingenciamento do governo e viabilizar que a gestão das contas mire o centro da meta de resultado primário e não mais o limite inferior. Isso pode acabar significando um aumento de valores congelados do Orçamento ao longo de sua execução, ainda que isso dependa também do comportamento da receita.
Participaram da reunião do Palácio da Alvorada, além de Durigan, o vice-presidente Geraldo Alckmin, os ex-ministros da Fazenda Fernando Haddad e Guido Mantega, e nomes do cenário econômico, como Laura Carvalho e Eduardo Moreira, de viés mais progressista, entre outros.
Integrantes do governo afirmam que essa é uma primeira rodada de encontros em que Lula pretende ouvir opiniões sobre a conjuntura econômica do país. A expectativa é que ocorram novas reuniões ouvindo outros economistas e também empresários. Após o encontro, Durigan disse que o encontro tratou de diagnóstico e de caminhos, mas não de medidas específicas.
— Não nos parece haver fórmula mágica, e sim manutenção dos compromissos fiscais. Então, um compromisso de seguir melhorando as contas públicas, com a manutenção e reforço do que precisa ser reforçado nas regras fiscais atuais, de modo que a gente siga melhorando tanto indicadores sociais, políticas públicas, quanto o resultado das contas públicas do governo — disse o ministro.
Lula embarca no dia 9 para Antália, na Turquia, onde participa da conferência do clima. A volta ao Brasil está prevista para 16 de novembro. Segundo aliados, só depois disso ele deve começar a definir a composição ministerial do quarto mandato, assim como medidas econômicas. Segundo o ministro, é depois disso que haverá uma conversa sobre medidas concretas.
Sobre a reunião, Durigan disse que o diagnóstico econômico foi “bastante convergente”. Entre os pontos positivos, citou o desemprego na mínima histórica e a inflação sob controle. Entre os desafios, listou a taxa de juros, o cenário internacional de guerra, com pressão sobre os combustíveis, e o impacto disso no custo de vida.
O ministro afirmou que, se o objetivo é ter superávit nos próximos anos, “nós estamos necessariamente falando em reforçar as regras vigentes hoje”. O projeto da LDO de 2027 prevê superávit primário de 0,5% do PIB (R$ 73,2 bilhões) para o governo no próximo ano, subindo para 1% em 2028, 1,25% em 2029 e 1,5% em 2030.
No mercado, a reação às declarações de Durigan foi neutra, com outras variáveis do cenário externo afetando o preço dos ativos. Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, reforçou que há preocupação com o fiscal, mas sem proposta definida.
O pronunciamento de Lula está no radar. Gustavo Bertotti, head de Renda Variável da Fami Capital, diz que o mercado espera mensagem mais séria sobre como o governo vai tratar a questão fiscal:
— Se não tocar na pauta fiscal, o mercado vai corrigir. E, se tocar, mas não convencer, o mercado vai continuar se deteriorando.
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, não foi chamado para o encontro, devido ao período de silêncio do Copom, intervalo em que o presidente e os diretores do BC estão proibidos de fazer declarações públicas, dar entrevistas ou comentar sobre a economia, taxas de juros (Selic), câmbio ou a decisão do comitê. O período inicia uma semana antes do Copom e fecha uma semana depois.
Um dos primeiros nomes a ganhar força para o Ministério da Fazenda após a reeleição de Lula, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, também ficou de fora da reunião.
Interlocutores do presidente afirmam que a ausência de Fonteles foi uma forma de evitar especulações sobre uma eventual indicação para a Fazenda, ao mesmo tempo em que Lula fez um gesto ao atual titular da pasta, buscando prestigiar seu trabalho e o do vice.
Sucessor de Haddad no ministério, Durigan segue no páreo para permanecer no cargo e, nesta semana, recebeu aval do presidente para afirmar que o governo trabalha com um “ajuste gradual” nas contas públicas. No fim da reunião, ficou definido que apenas Durigan falaria oficialmente sobre o encontro.
Na avaliação de auxiliares de Lula, a presença de Fonteles na reunião poderia enfraquecer Durigan justamente em um momento em que o governo discute medidas fiscais a serem implementadas ainda este ano.
Além disso, a participação do governador poderia transmitir a impressão de que o presidente já tomou uma decisão sobre o comando da Fazenda, embora a escolha ainda esteja em aberto. Pessoas próximas a Lula afirmam que o presidente está em uma fase de escuta e não pretende dar pistas sobre o futuro ministro antes do fim de novembro.
A composição da reunião, por outro lado, oferece indícios sobre qual o caminho o governo poderá trilhar para melhorar a situação das contas públicas.
O grupo de 11 pessoas que conversou com Lula, a despeito das nuances e variedade de opiniões, tem em comum uma leitura de que é possível melhorar a situação fiscal sem sacrificar de forma relevante gastos sociais e sem dar um “cavalo de pau” no tom da campanha eleitoral.
Nesse sentido, alguns dos personagens já verbalizaram pública ou reservadamente ideias como cortar gastos em emendas parlamentares, penduricalhos e supersalários do Judiciário, e melhorar a eficiência de programas sociais para evitar desperdícios.
Mas também defendem ações do lado da receita, como avançar em progressividade da tributação sobre a renda e patrimônio e diminuir os gastos tributários, agenda já encampada no atual mandato de Lula, mas que ainda teria bastante espaço para avançar.
(Colaborou Carolina Nalin)
BS20261106070001.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/11/06/lula-defende-responsabilidade-fiscal-mas-nao-diz-como-vai-arrumar-contas-publicas-veja-os-sinais-ate-agora.ghtml

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