POLÍTICA

Páginas ‘fantasmas’ do Instagram e Facebook direcionaram R$ 487 mil em ataques a governador de Santa Catarina

3 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Modelo de operação é o mesmo de outras contas que disseminaram anúncios contra Tarcísio e Flávio

O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, durante entrevista — Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/04-07-2023

O modelo de páginas “fantasmas” do Instagram e Facebook usado para impulsionar ataques ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também foi utilizado contra o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL). Três páginas injetaram R$ 487 mil em três meses para veicular publicações críticas ao chefe do Executivo catarinense, pré-candidato à reeleição.

Como O GLOBO revelou, sete páginas nas plataformas, com menos de 400 seguidores cada e sem identificação de seus responsáveis, injetaram mais de R$ 1,1 milhão em dois meses para impulsionar publicações contra Flávio e Tarcísio.

A estratégia foi replicada pelas páginas SC Digital, Bolsonaristas SC e Pátria Catarinense. O grupo compartilha do mesmo padrão: com menos de 200 seguidores, movimentou gastos expressivos, concentrados em um curto período de tempo.

No caso de Jorginho, parte das publicações tentam colocar em dúvida as credenciais como representante da direita. Os posts, por exemplo, afirmam que ele tenta esconder a ligação com o governo Dilma Rousseff. Outras publicações, entretanto, atacam ações do governo como a limitação do ensino de gênero nas escolas, associando a decisão ao aumento dos casos de feminicídio no estado. Há ainda conteúdo focado em temas com forte apelo social, buscando atacar o governador pela sua atuação no caso do cão Orelha.

Um milhão de impressões

Uma das páginas, Pátria Catarinense, vem impulsionando conteúdos desde 14 de abril. A publicação mais recente que contou com investimento da página, que já gastou R$ 108 mil para aumentar o alcance de 55 publicações, estava ativa até a última segunda-feira.

Já a página SC Digital gastou R$ 208 mil em publicações desde 13 de maio. Um desses anúncios, segundo dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, teve mais de um milhão de impressões, o que representa o número de vezes que apareceu em uma tela, o que pode incluir várias visualizações pelas mesmas pessoas. Os responsáveis pelo anúncio direcionaram o foco do público para atingir catarinenses. A publicação critica o governador por proibir o ensino de gênero nas escolas e associa a decisão ao aumento de casos de feminicídio no estado.

Em abril deste ano, o governador sancionou uma lei estadual que permite que pais e responsáveis proíbam a participação dos filhos em “atividades pedagógicas de gênero” nas escolas. Nele é definido que “consideram-se atividades pedagógicas de gênero aquelas que abordam temas relacionados à identidade de gênero, à orientação sexual, à diversidade sexual, à igualdade de gênero e a outros assuntos similares”. A lei é de autoria da deputada estadual Ana Campagnolo, do PL. Em junho, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina derrubou a lei, considerando-a inconstitucional, sob a justificativa de que a decisão sobre diretrizes educacionais é de competência da União e não pode ser definida por legislação estadual.

— Em um dos estados que mais mata mulheres no Brasil, Jorginho Mello proibiu o ensino de gênero nas escolas. Jorginho usa o oportunismo eleitoral enquanto as mulheres seguem desprotegidas. Está comprovado: a única forma de reduzir feminicídios é educando os homens desde a infância. Mas Jorginho não sabe nem o que fala e quem paga a conta são as mulheres catarinenses. Governador, o silêncio na sala de aula custa vida nas ruas — afirma o narrador no vídeo impulsionado.

Em outra publicação, da mesma página, SC Digital, o governador é acusado de oportunismo político no episódio do cão Orelha. O caso ganhou repercussão após o animal ter sido encontrado gravemente ferido. Inicialmente, o ataque foi atribuído a um grupo de quatro adolescentes, levando a intensa mobilização nas redes sociais.

Defensores da pauta animal e políticos ligados à direita usaram o episódio como uma justificativa sobre a necessidade de discussão da redução da maioridade penal. Em maio, entretanto, o Ministério Público de Santa Catarina concluiu que o cão não teria sido vítima de agressão humana.

— A morte do cão Orelha virou palanque, e Jorginho Mello aproveita o caso para se divulgar. Mas a realidade está nas atitudes ou na falta delas? — questiona o vídeo, que relata que o Ministério Público decidiu arquivar o caso contra os suspeitos: — E o que Jorginho fez? Nada. Falar, até papagaio fala. Impunidade e politicagem barata, o puro suco de Jorginho Mello.

A página Bolsonaristas SC, por sua vez, impulsionou críticas a programas do governo Jorginho Mello, repercutindo notícias contra o “Estrada Boa” e, sobretudo, ao Universidade Gratuita, programa em que o governo catarinense paga as mensalidades de estudantes do ensino superior. Uma das imagens afirma que Jorginho Mello teria dado “bolsa para centenas de milionários” e questiona se “mamata com dinheiro público é ser de direita”.

Muitas das publicações da página, que gastou R$ 181 mil desde abril, usa uma imagem de Jorginho Mello com a então presidente Dilma Rousseff, de 2009. A imagem se tornou centro de polêmica no estado porque o governador já entrou na Justiça para apagar publicações que usassem a foto, alegando que eram descontextualizadas. Em 2014, o então deputado federal Jorginho Mello era filiado ao PR (hoje PL), que fez parte da coligação que apoiou a reeleição de Dilma. Em imagens da época, Jorginho aparece sentado em um evento de campanha de Dilma no estado. O tema já foi utilizado na campanha ao governo de 2022 por um dos adversários do senador, o senador Esperidião Amin.

Procurada, a Meta respondeu direcionando a reportagem para dois links públicos sobre o funcionamento das propagandas ligadas a temas sociais e políticos na plataforma e sobre a atuação da companhia nas eleições de 2026.

Nas páginas, a empresa afirma que sua abordagem para as eleições de 2026 no Brasil está alinhada com a estratégia de garantir um ambiente on-line saudável, aplicando as políticas de conteúdo, apoiando a liberdade de expressão e incentivando a participação cívica e fornecendo transparência sobre propaganda eleitoral.

A Meta afirma ainda nessas páginas que trabalha em parceria com as autoridades para garantir a integridade das eleições, em conformidade com as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mesma estratégia

As páginas têm outras semelhanças com o grupo de páginas identificadas pelo GLOBO como responsáveis por impulsionar ataques contra Flávio e Tarcísio. Além de publicar vídeos sobre os mesmos temas, elas usam estratégias para ocultar o caráter político da publicação, como legendas neutras. Em geral, os vídeos são acompanhados de textos como “Esse tema continua rendendo comentários e reações on-line. Você viu isso?” e “Novos detalhes fizeram esse tema voltar aos debates públicos. Comente aqui!”.

Elas também utilizaram dados de registros similares: a Pátria Catarinense, com 92 seguidores, por exemplo, enviou suas informações para a Meta no dia 13 de abril, apresentando um celular com DDD 41, usado em municípios do Paraná, e o site “patriacatarinense.online”, registrado na plataforma “Hostinger” no dia 12 de abril, às 18h. A página Bolsonaristas SC, com 146 seguidores, também enviou suas informações para a Meta no dia 13 de abril, apresentando um celular com DDD 41. O site usado pela página é o bolsonaristassc.blog, criado na mesma plataforma às 17h44m, apenas 16 minutos antes.

A página SC Digital, com 153 seguidores, é mais recente: enviou suas informações para a Meta no dia 7 de maio, com o DDD 44, também usado em cidades do Paraná, com o site criado na plataforma Hostinger, no dia 6 de maio. Todas as três páginas já estão inacessíveis no Facebook.



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