POLÍTICA

Partido Democrata retoma o controle do Congresso, mostram projeções; derrotado, Trump diz que vai reconhecer resultados

4 de novembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Oposição conquistou vitórias estratégicas em bastiões republicanos como o Texas e as Carolinas, abrindo caminho para dois anos complicados para o presidente

Apoiadores do senador democrata Jon Ossoff, reeleito na Geórgia, de acordo com projeções – Foto: @jonossoff / Instagram / Reprodução

Dois anos depois de sofrerem uma dura derrota e perderem a Presidência e o Congresso dos EUA, o Partido Democrata retomou o controle da Câmara e do Senado após as eleições desta terça-feira, de acordo com projeções, materializando os piores pesadelos do presidente Donald Trump. A campanha foi marcada pelo elevado número de votos antecipados, pela mobilização dos eleitores e pelo volume recorde investido nos candidatos. Para Trump, que se recolheu na Casa Branca para acompanhar os números, a noite serve como o prenúncio de dois anos difíceis até o final de seu mandato, e reiteram o impacto de sua impopularidade. Ele disse que reconhecerá os resultados.

A projeção da vitória de Josh Turek, eleito senador por Iowa, garantiu aos democratas 51 cadeiras no Senado, o que lhes dará o comando da Casa pelos próximos dois anos. Veículos de imprensa também afirmaram, pouco antes, que o partido vai comandar a Câmara dos Deputados. Confira as projeções e resultados preliminares.

Câmara: Projeções indicam que democratas podem conquistar até 255 cadeiras das 435 que estavam em jogo, 40 a mais do que nas eleições de 2024;

Senado: Perto do final da noite, a estimativa era de 55 cadeiras sob controle democrata, de um total de 100, 8 a mais do que em 2024;

Governos estaduais: Se ao final das eleições de 2024 os democratas comandavam 23 estados, agora terão, no mínimo, 26 estados, sem contar os Legislativos locais

Mesmo antes dos primeiros vitoriosos serem anunciados, o desempenho dos democratas surpreendeu até em áreas dominadas pelo Partido Republicano. Na Flórida, mesmo em corridas onde foram derrotados, como para a vaga para o Senado, os percentuais foram melhores do que em ciclos anteriores, ignorando manobras jurídicas, como a mudança nos distritos eleitorais, aplicadas por ordem de Trump como forma de enfrentar a oposição.

— Estamos prestes a uma mudança drástica de rumo neste país — disse o deputado Hakeem Jeffries a aliados, citado pela rede CNN e que está prestes a se tornar o primeiro presidente negro da Câmara. — Estamos prestes a ver os democratas retomarem o controle da Câmara dos Representantes.

Mudança que teve na projetada vitória de James Talarico, mais novo senador pelo Texas, um de seus marcos. Aos 37 anos, uma das novas faces do Partido Democrata conseguiu vencer o questionado candidato republicano, Ken Paxton, e a máquina da sigla que comanda o estado há décadas. Durante a apuração, sua liderança sequer foi ameaçada. Outras viradas ocorreram no Kansas, em Ohio, nas duas Carolinas, do Norte e do Sul, com Roy Cooper e Annie Andrews, confirmando a força da oposição em redutos que, há dois anos, deram contundente votação a Trump. No Maine, Susan Collins, que desde 1997 ocupava uma cadeira no Senado, reconheceu a derrota para o ex-lenhador Troy Jackson antes que os resultados fossem divulgados.

Na noite de terça-feira, coube ao senador Mark Warner a “honra” de ter sido o primeiro a ter a vitória projetada pela imprensa americana, lhe dando mais seis anos no Capitólio — diferentemente do Brasil, onde o sistema de contagem é centralizado, o processo nos EUA está nas mãos dos estados, e os meios de comunicação “declaram” vitórias antes mesmo do fim da contagem, com base em tendências nas urnas e históricas.

E houve espaço para eleições históricas: na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms se tornou a primeira mulher negra a comandar um estado nos EUA. Byron Donalds, republicano, será o primeiro homem negro a governar a Flórida, e David Crowley, democrata, o primeiro negro à frente do Wisconsin. No Texas, Gina Hinojosa é a primeira governadora latina, e Deb Haaland, no Novo México, a primeira representante dos nativos americanos — ambas são democratas, assim como Chris Pappas, eleito por New Hampshire o primeiro parlamentar abertamente gay na Casa.

— Parece que talvez, apenas talvez, algo esteja despertando na consciência dos Estados Unidos — disse o governador reeleito de Illinois, o democrata JB Pritzker, em discurso a apoiadores no qual lançou as bases da próxima batalha política, a disputa pela sucessão de Trump na Casa Branca, em 2028. — Escalamos uma montanha hoje à noite. Mas estamos na base de outra.

Uma marca do ciclo eleitoral foi a impopularidade de Trump, principal arma da oposição democrata para conseguir consolidar posições em áreas como a Califórnia e Nova York, e avançar em redutos republicanos, como o Alasca e o Texas, que podem ser decisivos na formação do Congresso. Hoje, a aprovação presidencial gira em torno de 36%, a mais baixa em décadas. Todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado estavam em disputa, além dos governos de 36 estados.

— A situação do país não é nada boa. A economia. Os preços de tudo — disse Gabrielle Schlueter, uma aposentada de 69 anos na Geórgia, à AFP. — Saúde. Eu não estou sofrendo com isso, mas outros não deveriam ter essa preocupação.

Os republicanos tentaram desviar o foco da economia, apresentando a eleição como uma escolha entre seu partido e os oponentes democratas, que eles tentaram rotular como ativistas radicais de extrema esquerda, explorando os temores dos eleitores em relação à imigração e a questões como a participação de crianças transgênero em esportes escolares. Trump buscou defender o próprio legado, repetindo o discurso de que reconstruiu o país por meio de sua repressão à imigração, da guerra contra o Irã e das tarifas, mas alguns candidatos o esconderam durante a campanha.

Em sua última aparição pública de campanha na segunda-feira, Trump mal mencionou as eleições e fez um discurso desconexo sobre a problemática reforma do espelho d’água de Washington. Na ocasião, disse queo pleito seria “o mais importante em nossas vidas” e que o Partido Democrata havia “indicado a lista de candidatos mais extremista e perigosa da História americana”.

Na noite desta terça-feira, o presidente acompanhou a apuração na Casa Branca, ao lado de alguns membros de seu Gabinete, como o secretário de Estado, Marco Rubio, um dos nomes na lista de potenciais sucessores do republicano em 2028. No Truth Social, destinou palavras pouco polidas à cobertura da rede Fox News, que no passado se notabilizou pela proximidade com o trumpismo.

Em mensagem a apoiadores, afirmou que os democratas querem lançar um novo processo de impeachment contra ele caso conquistem as duas Casas do Congresso. Mas diante da derrota, afirmou ao New York Times que está “absolutamente disposto a aceitar esses resultados”, e que “Vamos trabalhar com os democratas e, sabe, estamos ansiosos para trabalhar com eles”.

— Provavelmente chegaremos a um entendimento — acrescentou.

Mike Johnson, que perderá o emprego de presidente da Câmara, disse que “também está decepcionado” com os resultados, mas disse a apoiadores que continuará lutando contra a “agenda socialista” em Washington.

Números preliminares apontam que o comparecimento já superava as expectativas antes do fechamento das urnas. Segundo a rede NBC News, foram 60 milhões de pessoas até o fim de segunda-feira. Há quatro anos, quando ocorreram as últimas eleições de meio de mandato, 47 milhões de pessoas votaram de maneira antecipada. Segundo a Associated Press, o eleitorado hispânico e negro compareceu em massa — entre eles, a neta do líder do movimento pelos direitos civis nos EUA, Martin Luther King Jr., Yolanda Renee King, que aos 18 anos votou pela primeira vez em Atlanta.

— Antes, meu voto era representado por meus pais, amigos e familiares. Agora, posso de fato ir e falar por mim mesma — disse a jornalistas.

Além do fator Trump e do alto comparecimento antecipado, o processo foi marcado pelo dinheiro despejado nas campanhas desde as primárias: segundo a organização independente de controle Open Secrets, foram gastos US$ 12 bilhões, o maior valor já registrado em eleições de meio de mandato, com destaque para os investimentos do ex-trilionário Elon Musk. Ele gastou quase meio bilhão de dólares para grupos republicanos, candidatos e seus aliados, mais do que qualquer outro doador jamais gastou em um único ciclo eleitoral. Em uma mudança peculiar de hábitos, não fez publicações em sua rede social, o X, depois do início da apuração dos votos.

Com AFP e New York Times.

BS20261104105003.1 – https://extra.globo.com/politica/noticia/2026/11/partido-democrata-retoma-o-controle-do-congresso-mostram-projecoes-derrotado-trump-diz-que-vai-reconhecer-resultados.ghtml

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